segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Paisagem invisível - Luli Radfahrer

folha de são paulo
Já houve um tempo em que a conexão era visível. Os fios indicavam os caminhos entre aparelhos e suas fontes de energia, de dados, de contato. Bastava puxar o plugue para se isolar.
Não mais. Hoje vivemos em uma paisagem feita de várias camadas superpostas. Um cobertor gigantesco e crescente de informações permeia corpos e ambientes, imperceptível, na forma de ondas eletromagnéticas ou hipersônicas, que só a visão biônica das próteses digitais consegue perceber.
Aviões trafegam em avenidas de informação, transparentes como os radares e comunicações da Polícia. Barcos desviam de recifes e procuram cardumes usando frequências sonoras inaudíveis até por morcegos. Em casa, luzes invisíveis esquentam a comida, tocam alarmes, detectam fumaça e ligam a TV. Nos hospitais, aparelhos de Raio X, Ressonância Magnética e Tomografia invadem o corpo humano com precisão de fazer inveja ao Super-homem.
Invisível e onipresente, o espectro eletromagnético foi aos poucos conquistado. As várias formas de Rádio, das emissoras aos intercomunicadores, GPS, portões eletrônicos, fones de ouvido, celulares, TV a satélite, telefones e periféricos de computador sem fio são apenas algumas das paisagens invisíveis, de outra dimensão, interferindo no cotidiano.
Smartphones deixam e procuram rastros de feromônios digitais o tempo todo, seja pela luz infravermelha dos controles remotos ou por tecnologias de rádio cujos nomes fariam inveja a insetos, como Bluetooth, ZigBee, DMB, NFC, GSM, RFID e Wi-Fi. No Quênia usa-se o celular para pagar o ônibus. Na Líbia, ele é quase um cartão de crédito. Franceses o usam como carteirinha de serviços de saúde. Alemães controlam o trabalho de equipes através deles. Hotéis da Suécia os aceitam como chaves de quarto. Por menos de um dólar é possível comprar, via Internet, uma etiqueta que identifica objetos perdidos. Robôs agrícolas, implantes corporais e remédios nanoscópicos estão no horizonte próximo.
O mundo está cada vez mais denso em informação, acessível somente por máquinas. Há redes de todo tamanho, desde o campo próximo dos bilhetes de transportes, passando pelo corpo, espaço individual, eletrodomésticos, automóveis, locais, área de alcance do smartphone, casas, empresas, universidades, cidades, países e nuvem, essa instância virtual e multinacional que tenta se confundir com a Internet que a sustenta.
Não tardará para que a computação esteja distribuída pelo ambiente, transformando qualquer superfície disponível em uma interface e qualquer momento do dia em uma possível interação. Computadores estão se dissolvendo na nuvem, no ambiente e nos corpos. As próximas gerações serão incapazes de identificá-los.
Voz, temperatura e umidade corporal, movimento e geolocalização geram informações que podem ser interpretadas, comparadas e armazenadas. Fazendas de servidores, com poder computacional gigantesco interpretam a linguagem falada, identificam padrões de comportamento, tomam decisões a partir de informações dúbias e produzem, quase que instantaneamente, as respostas mais simples e diretas possíveis, normalmente na forma de um conjunto de palavras ou um valor numérico.
Aplicativos invisíveis ignoram interfaces gráficas ricas em favor de um conteúdo mínimo, pragmático, contextual, humanizado e adequado. São o primeiro passo na direção de um futuro baseado em uma simplicidade tecnologicamente calculada.
À medida que se sofisticam, essas tecnologias se tornam cada vez mais opacas. Muitas cedem à tentação de se tornarem fechadas, proprietárias, criptografadas, intraduzíveis. Ao mesmo tempo que podem facilitar o contato com o mundo, essas tecnologias podem ser intraduzíveis para seus usuários, legislando sobre eles sem enfrentar oposição. É impossível desenvolver uma crítica quando não se é capaz de entender o ambiente.
É preciso desenvolver a percepção a respeito das coisas invisíveis, imateriais e intangíveis ao redor. Em uma sociedade conectada, a capacidade de traduzir as máquinas herméticas, abrindo-as, desmistificando-as e explicando seu impacto sobre potenciais usuários e seu ambiente é fundamental.
Quem não for capaz de compreender a dimensão do mundo digital não será capaz de agir efetivamente nele, e acabará forçado a acatar qualquer decisão tomada por ali.
Luli Radfahrer
Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Autor do livro "Enciclopédia da Nuvem", em que analisa 550 ferramentas e serviços digitais para empresas. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas na versão impressa de "Tec" e no site da Folha.

O subconsciente é a nova fronteira do design

iNTERNETS - folha de são paulo
RONALDO LEMOS
@lemos_ronaldo
O subconsciente é a nova fronteira do design
Uma nova fronteira está se abrindo para pensar nossa relação com as máquinas. Até hoje, o design de interfaces é pensado apenas para um aspecto da mente humana: nossa consciência "racional". A ideia é sempre tornar as interfaces mais eficientes, permitindo fazer mais trabalho em menos tempo. Um exemplo é o iOS 7, recém-lançado pela Apple, que recebeu elogios por ser mais "produtivo".
No entanto, começam a surgir discussões sobre se o design do futuro não deve levar em consideração também aspectos do "subconsciente". De nada adianta uma interface ser mais produtiva se ela sobrecarrega o usuário. Em outras palavras, um novo sistema operacional pode ser ótimo do ponto de vista racional, mas produzir efeitos negativos para a criatividade e mesmo para o bem-estar psíquico dos seus usuários.
Um interessante texto sobre esse assunto pode ser lido em bit.ly/jitodes. Nele, Joi Ito, diretor do Media Lab do MIT, diz: "O bom design comunica-se com nosso sistema emocional, que é mais amplo e mais rápido. Você dirige um carro ou joga basquete melhor se a mente racional sair do caminho, nos deixando ser mais intuitivos."
Essa é uma sensação que quem joga videogames conhece bem. Quem joga "Call of Duty" sabe que em algumas fases é fundamental mergulhar em um estado de fluidez, tomando decisões ao nível do inconsciente, muito mais rápidas, e que esse é o único jeito de vencer.
O desafio é reproduzir esse estado de "fluidez" não só nos games, mas também em qualquer outra interface. Não vai ser surpresa quando as principais empresas da internet partirem para valer em busca da conquista do subconsciente.
READER
JÁ ERA Fast food, fast fashion
JÁ É Slow food, slow fashion
JÁ VEM Slow web (jackcheng.com/the-slow-web)

    Dislexia é tema de semana nacional de conscientização

    folha de são paulo
    SAÚDE
    Para alertar a respeito dos sinais e difundir informações do transtorno, começa hoje a Semana da Dislexia - Muito Mais do que Palavras. O evento é promovido pelo Instituto ABCD, que auxilia a formação de professores e dá amparo à atuação de especialistas da saúde.
    "Acreditamos que, se o professor compreender melhor como a criança aprende, porque ela pode não aprender em alguns contextos, o número de encaminhamentos para centros clínicos pode diminuir muito", diz Carolina Toledo Piza, coordenadora técnica instituto.
    A semana terá a exibição de filmes, debates e oficinas. A programação está em http://institutoabcd.org.br.

    Viral não é 'brinqueichon'

    folha de são paulo
    Não há fórmula que garanta sucesso do conteúdo, mas alguns ingredientes podem fazer a diferença; confira quais
    MARCEL GUGONICOLABORAÇÃO PARA A FOLHA,"Brinqueichon" não está no dicionário, mas entrou no rol de expressões que ganharam fama na internet e chegaram ao mundo real após viralizar, verbo que, no mundo virtual, define algo que se propaga naturalmente.
    Para especialistas, não há receita definida para que uma imagem passe a ser compartilhada e curtida, tampouco de que um vídeo seja visto por milhões, como é o caso do "brinqueichon", que saiu de um viral feito sobre outro viral. Mas há ingredientes para se atentar.
    Foi uma entrevista em inglês macarrônico de Joel Santana, então técnico da seleção da África do Sul em 2009, que bombou na internet.
    Neste ano, a agência de propaganda Africa chamou o treinador para um comercial de xampu, cujo nome em inglês é difícil de pronunciar. "Fizemos pesquisas e identificamos esse problema", conta Eco Moliterno, 35, responsável pela campanha "Donti Révi Caspa".
    A campanha viralizou, e os consumidores passaram a buscar o produto na internet --e rir da piada, claro.
    O humor é um dos maiores ingredientes dos virais. Mas não só isso. "O que os virais têm em comum é sua capacidade de gerar emoções", diz Ray Chan, um dos criadores do 9gag, comunidade de humor colaborativo da internet.
    Daniel Tártaro, 33, responsável pela área Digital da agência Ogilvy, foi ao cerne da questão com uma marca de produtos femininos.
    A premissa era simples: "96% das mulheres dizem não se achar bonitas." A campanha sugere, a partir de retratos falados feitos por um perito forense, que cada uma é mais bonita do que pensa. Tornou-se o viral de marketing mais visto no mundo.
    EXTREMO E CONECTADO
    Um grupo de pesquisadores da Academia Militar de West Point, nos EUA, diz que achou a origem técnica da viralização. Segundo a pesquisa, quase todos os conteúdos do tipo partem de um grupo pequeno com grande influência sobre os demais.
    Paulo Shakarian, responsável pelo estudo, avalia que o maior mérito foi conseguir encontrar um algoritmo capaz de analisar a influência de cada amigo em uma rede de contatos e identificar os principais semeadores de tendências. "O trabalho tenta identificar o grupo de indivíduos capaz de iniciar a adoção em cascata de novos comportamentos até que todos passem a segui-los", explicou, em entrevista à Folha.
    Para Thiago Rosente, da consultoria audiovisual Scherzo, o ingrediente que ajuda no compartilhamento é o extremo de uma situação. É o caso de "a pior falha em rebolado" (veja ao lado).
    "Tudo que se destaca de maneira bruta também mostra o oposto do que se espera ver", afirma. "É o caso dos Pôneis Malditos', um bicho bonitinho que vem carregado de um adjetivo negativo."
      'Entender o viral reduzirá as propagandas'
      Para estudioso do tema, chave é descobrir o que ele classifica como grupo disseminador
      COLABORAÇÃO PARA A FOLHA,Com um grupo de pesquisadores, Paulo Shakarian diz ter encontrado uma explicação para o efeito do viral na internet. Eles criaram um algoritmo para selecionar quem tem o poder real de espalhar mensagens. Segundo ele, entre 3% e 5% do total de usuários de uma rede social consegue "viralizar" algo.
      Identificar o que ele chama de grupo-semente ("seed set") é o segredo por trás da teoria. "Se isso acontece, pode haver uma redução das propagandas. Quem trabalha com marketing se voltará ao poder do boca a boca", diz. (MG)
      Folha - Como acha que sua teoria ajudaria a entender a viralização na internet?
      Paulo Shakarian - Até agora, descobrimos que as redes sociais com acesso mais restrito são menos suscetíveis a espalhar informações. O modo como as pessoas se conectam à internet em redes para propósitos mais variados (como o Facebook, em que o usuário se conecta a grupos de colegas de trabalho, familiares e amigos de escola) facilita as coisas a se tornarem virais.
      Qual o percentual do grupo-semente em uma rede social?
      Nos nossos testes em amostras no finado Friendster, verificamos 5,6 milhões de indivíduos com 28 milhões de conexões entre si. O grupo-semente era de menos de 1%. A maior parte das amostras que temos também têm pequenos grupos-semente, algo sempre entre 3% e 5% da população. Esse é um dos pontos que ajuda a entender por que as coisas se espalham tão rapidamente.
      Por que esse algoritmo é útil?
      Conhecer grupos-semente pode ser útil para a área de marketing uma vez que eles poderão focar suas estratégias em grupos menores. Isso pode levar a uma redução das propagandas, uma vez que eles poderiam se voltar ao poder do boca a boca. Acho que a maioria das pessoas adoraria isso. Eu também creio que poderia ser útil para aqueles que operam as mídias. Se o Friendster, por exemplo, tivesse entendido quão frágil era sua rede de usuários, eles poderiam ter evitado o próprio colapso.

        Seguidores de Dilma e da personagem Dilma Bolada diferem entre si - NELSON DE SÁ

        folha de são paulo
        Há duas semanas, a presidente Dilma Rousseff retomou seu perfil no Twitter, inativo desde o final da campanha, em 2010, com uma conversa com o perfil humorístico Dilma Bolada, mantido por Jeferson Monteiro.
        As duas contas têm grande número de seguidores, 1,977 milhão na oficial, 158 mil na paródia, mas as respectivas audiências interagiram pouco, de acordo com levantamento (ver mapa).
        Reprodução/raquelrecuero.com
        Gráfico mostra a interação entre seguidores de Dilma e da personagem humorística Dilma Bolada no Twitter
        Gráfico mostra a interação entre seguidores de Dilma (esq.) e da personagem humorística Dilma Bolada (alto) no Twitter
        Segundo Raquel Recuero, professora da Universidade Católica de Pelotas (RS) e autora do estudo, "apesar de conversarem entre si, cada uma das contas falou com um grupo diferente".
        Avalia que houve intersecção entre os dois grupos, mas "pequena em relação à audiência total", que foi concentrada em perguntas e questionamentos voltados diretamente ao perfil oficial.
        DEMOCRATIZAÇÃO
        Os dados coincidem com levantamentos semelhantes feitos por Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, sobre temas políticos como a votação dos embargos do mensalão, no Supremo Tribuna Federal.
        Malini não vê problema na separação em grupos, no Twitter. Ele questiona, porém, "um certo idealismo impossível de se realizar" na defesa de interação maior, pois não é uma característica da rede social.
        "O Twitter é rede direcional, em que você direciona sua interação, mas não é mão dupla", diz. "Eu sigo você, mas você não me segue: essa natureza do Twitter já propicia uma separação."
        Ele até defende algum isolamento. "Ter a diferença, as posições distintas, equivale a uma democratização maior. E essas posições têm muito a ver com o grupo em que você se informa."
        MARKETING
        Sobre os perfis de Dilma e Dilma Bolada, Malini nota que o primeiro tem seguidores de "vários interesses, inclusive adversários", e vem se firmando até mesmo como meio de obtenção de "informações exclusivas".
        Já o segundo "tem a ironia, o humor", diz ele. Para Recuero, "a Dilma Bolada supre" um vazio na imagem da presidente, pré-candidata à reeleição. "É o lado em que fala o que quer, samba na cara dos outros."
        Esse ganho de marketing "não seria possível se não fosse o humor", avalia Malini. Com viés paródico, o perfil, segundo ele, gera "identificação nas pessoas, que se envolvem, riem, falam bobagem para a Dilma Bolada".
        Recuero observa que Dilma "ganhou a eleição e sumiu" do Twitter. "Ficou uma coisa estranha", porque desde então "ministros, deputados, todo mundo passou a ter, menos ela".
        Afirma que "é um pouco de medo" e requer, de fato, aprendizado. "Você tem milhares de exemplos, inclusive de políticos, que falam e depois se arrependem. E a internet não esquece."

        Relativamente pouco popular, Twitter é base para estudos de rede social


        NELSON DE SÁ

        DE SÃO PAULO
        Ouvir o texto
        A maioria dos estudos sobre tendências de rede social, tanto no Brasil como no exterior, toma por base o Twitter. Mas este tem 215 milhões de usuários mensais ativos, contra 901 milhões do Facebook.
        Até que ponto o Twitter pode ser considerado representativo das redes como um todo? "Em princípio, ele não seria representativo", diz Recuero. "Entretanto, nas pesquisas, a gente vê reflexos."
        Nos levantamentos feitos na universidade de Pelotas, os comportamentos no Twitter "acabam se espalhando para o Facebook", o que também se observa em relação ao Instagram, rede de fotografia.
        A avaliação é possível porque já existem "ferramentas que permitem usar o Facebook para algum estudo" da formação de redes, embora não "uma análise total", pois os dados são anônimos.

        Felizes no Facebook? - Marion Strecker

        Na última semana, às vésperas do Dia das Crianças, o Facebook se encheu de fotos de infância. Apareceram milhares de carinhas incríveis, bonitinhas e sorridentes, substituindo as fotos habituais dos adultos. Talvez você, leitor, também tenha publicado a sua. Minha irmã publicou uma linda, nossa. Foi uma onda infantil que arrancou sorrisos, trouxe surpresas, lembranças e provocou saudade.
        Cartunista Alpino
        O Facebook tem desses fenômenos, como quando se encheu de pessoas que mudaram seus sobrenomes Guarani-Kayowá, em outubro do ano passado, depois que índios do Mato Grosso do Sul, defendendo seu direito à terra e à vida, divulgaram uma carta aberta dramática interpretada como prenúncio de suicídio coletivo.
        No caso do sobrenome indígena, o Facebook reagiu notificando os usuários, sob argumento de que informar nomes reais são uma premissa dos termos de uso do serviço. Estragou a manifestação espontânea e relevante em nome dos seus interesses empresariais. Mas como o Facebook vai saber se um nome é real e uma fotografia verdadeira? Vão pedir documentos? Adiantaria? Claro que não.
        O Facebook já está infestado de perfis falsos. Não só daqueles que os amigos fazem para "divulgar" uma pessoa conhecida que não está a fim de entrar na rede social. A rede está cheia de perfis falsos mesmo, daqueles mal-intencionados. Do tipo um Bradesco Saúde que vende seguro SulAmérica, que deve pagar o Facebook para ter livre acesso à minha caixa postal.
        Nos últimos meses comecei a receber mensagens privadas de pessoas que desconheço, com um lenga-lenga estranho, impessoal. Várias dessas mensagens eram de remetentes mulheres, com caras sugestivas, oferecendo o envio de fotos. Desconfio que o negócio desses remetentes seja pornografia ou prostituição, mas não vou perder tempo em conferir.
        Problema do Facebook: #ficaadica. Já cansei de prestar serviços gratuitos para grandes corporações. Enquanto tenho um restinho de paciência, apago ou esqueço. Quando não tiver mais, abandono o serviço, como já abandonei tantos outros, que desapareceram com o tempo.
        Enquanto penso nessas coisas recebo um estranho documento do meu colega jornalista Guilherme Kujawski. Uma pesquisa realizada por profissionais dos departamentos de psicologia das universidades de Michigan, nos Estados Unidos, e de Leuven, na Bélgica, relacionou o uso de Facebook e com bem-estar --ou com mal-estar.
        Não, os resultados não mostram o mundo cor de rosa que tentam nos vender de uma vida tanto mais feliz quanto mais conectada. A vida dos facebookianos pode até parecer uma campanha publicitária de margarina, com seus rostos alegres, bonitos e ensolarados. As melhores fotos são escolhidas a dedo, os sofrimentos são em geral escondidos e as informações que podem servir à imagem, à fama ou à vaidade das pessoas são publicadas ininterruptamente, sem parar.
        Eu não aguento mais ser informada diariamente que fulano fez "check-in" no mesmo tal lugar, que deve parecer chique para ele, penso eu. Poupe-me! Pense no tempo de leitura que você me rouba! Ou você está pedindo para que eu deixe de "te seguir"?
        Marion Strecker
        Marion Strecker é jornalista e cofundadora do UOL. Começou sua carreira como professora de música e coeditora da revista Arte em São Paulo. É formada em comunicação social pela PUC-SP. Trabalhou na Redação daFolha entre 1984 e 1996, onde foi redatora, crítica de arte, editora da 'Ilustrada', editora de suplementos, coordenadora de planejamento, coordenadora de reportagens especiais, repórter especial, diretora do Banco de Dados, diretora da Agência Folha e coautora do Manual da Redação. É colunista da Folha desde 2010. Pioneira na internet no Brasil, liderou a equipe que criou a FolhaWeb em julho de 1995 e foi diretora de conteúdo do UOL de 1996 a 2011. Viveu em San Francisco, Califórnia, de julho de 2011 a julho de 2012, atuando como correspondente do portal. Mudou-se para Nova York, onde começou a escrever um livro sobre internet, previsto para sair em 2013 pela Editora Record. Atualmente vive em São Paulo.

        ENTREVISTA DA 2ª SHIMON PERES

        FOLHA DE SÃO PAULO

        Não houve mudança no Irã; fatos contradizem discurso
        NOVO LÍDER IRANIANO SÓ MUDOU RETÓRICA, AVALIA PRESIDENTE DE ISRAEL, QUE SE DIZ OTIMISTA SOBRE NEGOCIAÇÕES COM PALESTINOS
        DIOGO BERCITODE JERUSALÉMHá, para Shimon Peres, duas questões em que devemos fechar os olhos e nos entregar. "O amor e a paz", diz o presidente de Israel durante entrevista exclusiva à Folha, em sua residência oficial.
        Aos 90 anos, Peres afirma não ceder ao pessimismo em relação às negociações com os palestinos --premiê de Israel por duas vezes antes de assumir a Presidência, em 2007, ele é um dos símbolos da busca pela paz na região.
        Mas o país tem de lidar com os desafios pragmáticos no trajeto. No meio do caminho, há as pedras lançadas por palestinos num conflito que dura décadas. Também há vizinhos que, como Irã e Síria, se opõem à existência de Israel.
        Ao contrário da liderança americana, que vê uma nova abordagem diplomática no presidente iraniano recém-eleito, Hasan Rowhani, Peres diz que Israel irá lidar com acontecimentos concretos.
        "Por enquanto, não houve mudança. Os fatos contradizem os discursos", afirma. "Ninguém no mundo está ameaçando o Irã. Por que o Irã ameaça outros países?"
        -
        Folha - O sr. costuma, em discursos, falar sobre a paz. O que esse tema significa hoje?
        Shimon Peres - Antes de falar sobre paz, temos de falar sobre a guerra. Não há mais razões para haver guerras. As disputas eram, no passado, sobre território. Hoje, a terra é menos importante.
        Mas território não é uma razão para o conflito com as autoridades palestinas, na Cisjordânia?
        Isso é solucionável. As pessoas esquecem que, nas guerras, conquistamos territórios árabes. Quando houve paz, devolvemos tudo. Ao Egito, à Jordânia. Sem problemas.
        Começamos a devolver aos palestinos também. Tiramos os colonos de Gaza, em 2005. Mas, infelizmente, eles recorreram ao terrorismo. As diferenças territoriais são pequenas, entre 4% e 6%. Isso pode ser resolvido pela troca de terras. Há uma solução.
        O presidente palestino, Mahmoud Abbas, é um parceiro confiável para negociações?
        Absolutamente. Eu o conheço há anos. Homem sério, de paz. Assinamos os Acordos de Oslo juntos, em 1993.
        Por que Oslo não teve o efeito esperado [uma solução definitiva, em cinco anos]?
        Há diversas razões. Os palestinos estavam divididos, e esse foi o principal motivo. Os israelenses deixaram Gaza, e esse território virou uma base para o terror.
        As pessoas me perguntam por que eu confio tanto nas negociações. Dizem que sou ingênuo. Como posso convencê-los de que sei negociar? As coisas mais importantes da vida não podem ser conquistadas se você não fechar os olhos um pouco.
        Quais?
        O amor e a paz.
        O sr. está otimista, então?
        Talvez as pessoas sejam pessimistas, mas a história é otimista. O mundo se move adiante. Meu otimismo é baseado na experiência histórica. Sou velho o suficiente para saber que podemos fazer coisas que pensávamos impossíveis, incluindo a paz com o Egito [em 1979]. Era impensável, mas aconteceu. Não vou abrir mão da realidade.
        Nesta era, quais as ameaças à paz? Irã, Síria, Hizbullah?
        Sim. Terroristas não respeitam governos nem leis. Mas terror e pobreza estão ligados. No Oriente Médio, a questão hoje é mais existencial do que política. Por isso a Irmandade Muçulmana obteve o poder no Egito e então o perdeu [o presidente islamita Mohammed Mursi foi deposto, em julho]. Eles descobriram que não têm a solução para os problemas do país.
        No Irã, há algo de novo após a eleição de Hasan Rowhani?
        Na política e na vida, você só pode julgar as coisas pelos fatos. Por enquanto, não houve mudança no Irã. Os fatos contradizem os discursos. Se os iranianos dizem não querer bombas nucleares, por que desenvolvem mísseis?
        O que trouxe esses discursos carismáticos foram as sanções. Todos preferimos que a solução não seja militar. Mas, para dar credibilidade às opções não militares, o Irã tem de saber que estará sozinho e pode enfrentar a força.
        Se houver ações, Israel está pronto a considerar Rowhani como parceiro para a paz?
        Não sei se os iranianos iriam querer isso. Mas o problema é mais global que nacional, no Irã. Há coalizões de países --um grupo é liderado por EUA e União Europeia. Se os russos estiverem nesse lado, a pressão será mais efetiva. Israel, sozinho, não pode resolver todos os problemas.
        Como o sr. recebeu a notícia do recente telefonema entre Barack Obama, presidente dos EUA, e Rowhani?
        Não fui totalmente surpreendido. Percebi que havia disposição em ambos os lados. Não me importo que as pessoas conversem. Não é crime. Mas, se estão apenas conversando, é um problema.
        Se o sr. tivesse a oportunidade de conversar com Rowhani ao telefone, o que diria a ele?
        Eu diria a ele que ninguém no mundo está ameaçando o Irã. Então por que o Irã ameaça outros países? Me diga. Não entendo porque o Irã ameaça Israel. Para quê?
        Além disso, os iranianos pedem que as sanções sejam reduzidas. Mas eles podem melhorar a situação econômica ao parar as centrífugas nucleares. É um tremendo gasto de dinheiro manter esse projeto e organizações como a Guarda Republicana. Se você tem de escolher entre dar pão às crianças e fazer mísseis, por que mísseis?
        A questão iraniana tem aproximado Israel de nações árabes, como Arábia Saudita e Jordânia. É uma oportunidade diplomática?
        Sim. Não há conflito real entre nós. Você tem de ter uma questão para ir à guerra. Pelo que lutaríamos? O mais importante, que é ciência e desenvolvimento, não pode ser conquistado pela guerra.
        Mas ainda há situações que precisam de soluções militares, como o programa nuclear iraniano ou o conflito sírio?
        Hoje, a fome é mais perigosa que a guerra. Você pode usar a economia antes do Exército. Sanções econômicas, por exemplo. Os militares não podem resolver nada. Não dão comida, não dão ar limpo. Há escassez de ar fresco no mundo.
        Israel é um bom exemplo. É um pequenino país. A terra era extremamente pobre. Pântanos no norte, desertos no sul. Um lago morto [o mar Morto] e outro morrendo [o mar da Galileia]. O rio Jordão tem mais fama que água. A história de Israel é sobre homens enriquecendo a terra usando ciência e tecnologia.
        Essa abordagem pacífica será mantida no futuro, como um conceito absoluto?
        Sim. As nações serão julgadas pelo nível de educação, e não pela força dos Exércitos. Líderes dizem que são fortes. São mesmo? Podem acabar com o deficit econômico? Não. Terminar com o terror? Não. Então quem precisa de vocês? Pobres políticos.
        Há falta de líderes no mundo árabe?
        Não. Acho que a liderança hoje tem um significado diferente. Líderes não devem mandar no mundo. Eles têm de usar a boa vontade, não o poder. Não há grandes líderes porque não há necessidade deles. Minha recomendação é que líderes sirvam, em vez de mandar.
        Qual a avaliação que o sr. faz do conflito sírio?
        Temos de ter cuidado. São pessoas extremas. Eles acreditam em armas mais do que em computadores.
        Isso se aplica ao Exército regular e aos rebeldes?
        O Exército mal consegue existir. Já que a nação síria não está unida, o regime não consegue ter um Exército unido. Não acho que as guerras clássicas sejam o problema real. O problema são os terroristas, que estão destruindo seus países. Veja o que fizeram com o Líbano.
        Há receio de que rebeldes tomem o poder e sejam um parceiro mais duro para Israel do que o regime atual?
        Sim, mas eles estão tão divididos. Estão unidos contra Assad, mas não entre si. Por isso Assad ainda está no poder: o governo está mais unido do que a oposição.
        Qual é a relação de Israel com o Brasil hoje?
        O Brasil não é uma terra. É uma civilização. Introduziu uma coisa bastante interessante, que é a democracia em termos reais. Não é só o desejo de ser igual, mas também o direito de ser diferente. O Brasil representa a maior tolerância de nossos tempos. Há árabes e judeus em paz. Por que vocês não exportam a paz para o Oriente Médio?
          RAIO-X - SHIMON PERES
          VIDA
          Nascido em 1923 no que era à época território polonês, imigrou ao mandato britânico da Palestina nos anos 1930
          POLÍTICA
          Tem mais de seis décadas de carreira e foi cofundador do Partido Trabalhista, em 1968
          GOVERNO
          Premiê de 1984 a 1986 e de 1995 a 1996; presidente de Israel desde 2007
          PRÊMIO
          Nobel da Paz em 1994, após assinatura de Acordos de Oslo

            Gregorio Duvivier

            FOLHA DE SÃO PAULO
            Túnel do tempo
            Nunca deixe de ouvir Beatles, aprenda a tocar algum instrumento e nunca deixe de brincar de torremoto
            Caro Gregório-mais-velho,
            Quem te escreve é o Gregorio-de-7-anos-de-idade. O motivo dessa carta é o seguinte: percebi, por experiência própria, que o tempo muda as pessoas (em geral, pra pior). A prova disso é que é insuportável brincar com qualquer pessoa que tenha mais de dez anos de idade. A não ser com a vovó Ivna, que é o único adulto que se diverte brincando de torremoto ou aprendendo a jogar paratiparara. Modéstia à parte, acho que estou, agora, no meu auge. Faço toda a sequência do paratiparara com meu melhor amigo Rodrigo em 17 segundos. Por isso te escrevo, Gregório-piorado: para te esclarecer sobre algumas coisas que você talvez tenha esquecido daqui a 20 anos. Em primeiro lugar: nunca deixe de ouvir Beatles, e nunca ache que tem alguma coisa mais legal que Beatles, porque não tem. Em segundo lugar, aprenda a tocar algum instrumento direito. Assim, quem, sabe a Fanny te dá bola. Terceiro lugar: nunca deixe de brincar de torremoto. Caso você tenha esquecido, são pedaços de madeira que podem virar torres, ou casas, ou carros. Ou podem ser só pedaços de madeira, se você quiser jogar nos amigos. Resumindo: envelheça igual à vovó. Ah, e tenha uma casa cheia de cachorros. E videogames. E de preferência case com a Fanny. E por favor: continue melhor amigo do Rodrigo. Um abraço.
            Caro Gregorio-mais-novo,
            É com muito pesar que eu lhe escrevo essa carta. Pesar, caso não saiba, é o contrário de prazer. Para começar: a sua avó morreu. Pois é, isso é estranhíssimo: as pessoas morrem. Até a vó Ivna morre. As pessoas mais legais do mundo morrem. Morreu o seu amigo Rafinha, que morava no prédio do Rodrigo. Atropelado. Morreu o seu primo Guilherme, que se matou. Não adianta perguntar, eu não sei por quê. O fato é que na minha casa não tem cachorros, eu não sei tocar bem nenhum instrumento e nem lembrava do torremoto. Mas nem tudo é ruim. Você não briga mais com seus irmãos, que são seus novos melhores amigos, além do Rodrigo e da Julia, que tão namorando (você que apresentou). E você, tcharã: acabou de se casar. Foi mal, não foi com a Fanny. Mas foi com uma menina muito mais linda (mal, Fanny). Ela toca violão. E não só Beatles. Músicas dela. E um dia a gente vai ter cachorros. Ou filhos, o que vier primeiro. E daí eu juro que volto a brincar de torremoto. Por enquanto, a vida tá corrida, uma espécie de paratiparara. Aliás: aproveita enquanto você acha graça nessas coisas. E aproveita enquanto a sua vó tá viva. Você vai sentir falta.

              Luiz Felipe Pondé

              FOLHA DE SÃO PAULO
              Do mito ao fetiche
              O conceito de consciência política é tão científico quanto o conceito de mediunidade
              Em mil anos, lembrarão de nossa época como um mundo preso ao mito da política como redenção. Os medievais esperavam a redenção do mundo pelas mãos de Deus, nós esperamos a redenção pelas mãos da política, do povo, dos black blocs.
              Quase nada há de científico no tratamento da política no mundo contemporâneo, mesmo no conceito de "consciência política", que é tão científico quanto o conceito de mediunidade. Teremos que esperar mil anos para nos livrarmos dessa crendice.
              A rigor, quase não existe ciência política entre nós (pensando ciência como um método de observação que induz a teorias sobre os eventos observados), apenas crenças em processos mágicos carregados pelas mãos sagradas do "povo".
              O pensamento mágico em política se caracteriza, entre outras coisas, pela crença numa teoria a priori da história como processo, teoria esta por sua vez carregada de significado moral autoevidente (uma espécie de pureza moral). Já ouviu falar em algo parecido? Por exemplo, crer que quebrar coisas na rua seja um ato carregado de "justiça social" é como crer na providência divina do coquetel molotov.
              Dias atrás, o editorial desta Folha falava do "fetiche da democracia" para discutir a eleição direta para reitor da USP. Eu mesmo, nesta coluna, outro dia, falava dos inúmeros fetiches que marcam o debate filosófico-político entre nós, além do fetiche da democracia, o do povo, o da revolução, o das redes sociais, entre outros.
              Como antídoto a essa moléstia do pensamento, proponho a leitura do livro "Mito do Estado", uma pequena pérola do filósofo alemão Ernst Cassirer.
              Obra tardia na vida de Cassirer (1946), esse livro é uma espécie de testamento pessimista deste grande neokantiano. Cassirer ficou conhecido como autor de duas grandes obras em vários volumes: "Filosofia das Formas Simbólicas" e "O Problema do Conhecimento" --não sei se existem traduções delas no Brasil.
              Cassirer "saiu da moda" porque pecaria por ter pensado (devido ao componente hegeliano do neokantismo) a história nos moldes de uma evolução (um tanto hegeliana) na qual passamos do modo mítico ao modo lógico-científico de pensar.
              Fugindo da perseguição nazista (ele era judeu), Cassirer morre desesperado com o que ele pensou ter visto: um regresso ao modo primitivo de pensar a política, a saber, a fé num Estado (o fascista) todo-poderoso do qual emanaria a redenção da vida. Cassirer acertou em cheio.
              Ainda que o fascismo naqueles moldes tenha passado (quem sabe?), permaneceu em nós a relação mágica com a ideia da política como dimensão justificada em sua violência porque redentora da vida.
              Se vivesse mais, ele veria que o mito do Estado evoluiria para o mito do "povo democrático" como soberano "sábio" e "justo", pelo simples fato de nele repousar a graça da justiça social e histórica (maldito Rousseau!). Resumo este mito como "o mito da política como redenção". Puro pensamento mágico.
              Quando vemos black blocs quebrando bancos, carros e lojas, sob o efeito do mito da política, procuramos nesse simples ato de violência alguma teoria política que justifique a violência. Mas não existe.
              Pensar que há é semelhante aos inquisidores que pensavam existir no ato de queimar pessoas vivas um passo necessário à salvação daquelas almas perdidas.
              A "inquisição das ruas" hoje pensa que nossa sociedade está perdida e precisa ser salva por tais sacerdotes da pureza política. Mas o pior é que a classe intelectual é quase toda o alto clero dessa falácia. Rirão de nós em mil anos por crermos nessa mitologia da revolução.
              Daqui a mil anos verão que a Revolução Francesa (mito fundante desta seita que dá em black blocs) foi um fato desnecessário para o fim do mundo medieval. Pessoas quebrando coisas na rua não implica em melhoria política. A Argentina "vive na rua" e sua política é risível. Os EUA nunca "vão pra rua" e são a melhor democracia do mundo.
              Nosso mundo contemporâneo é superficial demais para sustentar mitos, por isso prefere o fetiche do porrete como pau duro na sua marcha redentora por "um mundo melhor".