sexta-feira, 15 de novembro de 2013

'Intimidade é o que se faz dentro de casa', diz Fernando Morais em festival de biografias

folha de são paulo

'Intimidade é o que se faz dentro de casa', diz Fernando Morais em festival de biografias


 
FABIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL A FORTALEZA
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Em debate na tarde desta quinta-feira (14/11), primeiro dia do Festival de Biografias que acontece em Fortaleza, o escritor Fernando Morais afirmou que intimidade, para figuras públicas, é somente "o que se faz a portas fechadas, dentro de casa".
O direito à intimidade é uma das bandeiras de artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso, reunidos na associação Procure Saber, que brigam para manter na legislação artigo do Código Civil que permite a biografados impedir a publicação de biografias não autorizadas.
"O que ele fez na rua, no restaurante, na calçada, o que ele falou ali é público. A relação de Caetano Veloso com a [ex-mulher e presidente da Procure Saber] Paula Lavigne dentro da casa deles é algo que diz respeito à intimidade deles. Mas na hora em que ela atira o automóvel no portão da casa dele quando eles tinham acabado de se separar, isso é uma informação pública, porque são duas figuras públicas", disse Morais.
Divulgação/Estúdio Pã/FIB
Fernando Morais autografa durante Festival de Biografias em Fortaleza
Fernando Morais autografa durante Festival de Biografias em Fortaleza
O autor das biografias "Olga", "Chatô - O Rei do Brasil" e "O Mago", entre outros livros, debateu com Paulo César de Araújo, autor de "Roberto Carlos em Detalhes", biografia retirada de circulação por uma ação judicial do cantor.
Morais lembrou dos conflitos éticos que já teve ao decidir se incluía ou não em biografias detalhes da intimidade de biografados, conflitos que dirimia com a ajuda de sua mulher.
Deu o exemplo de Paulo Coelho ("O Mago"). "A história dele tem coisas pesadas, satanismo, droga, suicídio, homossexualismo, dramas familiares. Eu pensava: Não sei se tenho o direito de exibir as feridas de um cara que abriu a casa e o coração para mim. Minha mulher então dizia: 'Você está querendo submeter seu leitor a uma censura prévia que nem o Paulo Coelho te impôs'. De fato, ele não me pediu para omitir nada nem leu o livro antes de ser publicado."
CAJU NA PRAÇA
Fernando Morais voltou a afirmar em Fortaleza que deverá parar de escrever biografias por causa das restrições impostas pela legislação.
"Não vou escrever mais nada. Vou ter que agradecer um dia a Paula Lavigne por ter me estimulado a pendurar as chuteiras. Vou entregar o livro do Lula [ele prepara uma obra que enfoca a vida do líder petista de 1980 a 2010, com a colaboração do ex-presidente] para a Companhia das Letras e vou vender caju na praça Buenos Aires [em Higienópolis, bairro paulistano onde mora o escritor], apesar de o Djavan achar que estamos podres de rico [o cantor disse que biógrafos "ganham fortunas"]."
Questionado se voltaria atrás caso a lei seja abrandada, Morais disse que não sabia.
A ameaça de Morais também deve ser relativizada por se tratar de um autor que, além do livro de Lula, tem pelo menos outros dois trabalhos biográficos em andamento, que faltam ser escritos (ou reescritos) e publicados --a biografia do político baiano Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) e os bastidores da passagem de José Dirceu pelo governo federal.
Ele diz ainda ter em casa "umas 50 caixas" com papeis de outros personagens biografáveis.
CARTA DE FORTALEZA
A controvérsia que opõe biógrafos e editores ao Procure Saber terá novo capítulo na semana que vem, quando haverá, nos dias 21 e 22, uma audiência pública no STF (Supremo Tribunal Federal) para debater a ação de inconstitucionalidade movida por uma associação de editoras que tenta alterar a legislação.
Durante o debate de hoje, Morais reforçou a proposta, que antecipara à Folha, para que os 11 biógrafos reunidos no festival redijam uma carta a ser enviada aos ministros do Supremo, em especial à ministra Cármem Lúcia, relatora da ação das editoras.
Segundo o escritor, o documento não deve ultrapassar dez linhas. "Sugiro que a redação seja do Mário Magalhães [autor da "Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo" e curador do Festival de Biografias]. É uma convocação que chegou do Comitê Central", brincou.
Morais e Paulo César de Araújo batizaram na hora o futuro documento de "Carta de Fortaleza".
O jornalista FABIO VICTOR viajou a convite da organização do Festival Internacional de Biografias

Tati Bernardi

folha de são paulo

Conexões de amor sobre IP

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- Eu fui ao dermatologista e ele achou estranha uma pinta da minha perna e arrancou. Até hoje não saiu o resultado. Tô meio nervosa.
- Eu tava atrasado e corri tanto que desmaiei. Era um subidão...eu tô sempre atrasado.
- Eu adoro batata. Eu quero comer batata o tempo todo, pro resto da vida. Com queijo. Eu adoro queijo e batata.
- Eu deveria ler mais. Eu sou um cara meio sozinho, deveria ler mais.
- O Lobo da Estepe é sobre um cara solitário. Todo cara solitário é na verdade um egocêntrico... talvez você só consiga ler o que fala sobre você. O excêntrico é o egocêntrico que se excedeu. Eu sempre me apaixono por falsos fofos.
- Eu não sou falso fofo. Eu sou falso e sou fofo, mas não um falso fofo.
- É sempre por esses tipos que eu me apaixono.
- Eu adoro Red Hot.
- Aff...já era né? Eu adoro Hot Chip.
- Preciso ir.
- Ontem eu sai com um cara. Ele tem uma tatuagem de nuvem na nuca. Achei que o cheiro forte que eu sentia era cheiro de homem, mas comecei a perceber que ele ia muitas vezes ao banheiro do restaurante e nunca pedia comida. Aquele cheiro era de pó. Gente que cheira tem um cheiro de azedo perto do coração.
- Preciso mesmo ir. Depois te chamo.
- O tempo do outro demora uma eternidade. O tempo do outro demora duzentas mil vezes o espaço que eu dou para o tempo do outro. Eu preciso ver a outra pessoa para saber se de fato gosto dela, mas não consigo. Minha ânsia de amar é tão grande que me apaixonei criança por um vulto e até hoje fico pegando coisas reais para tentar preenchê-lo, mas o amor vive vazio. É como se eu tivesse te comprado, ou melhor: te inventado. A pior vingança de quem ousa inventar um amor é o personagem criar vida própria. Eu não respeito você. Não me importa sua hesitação. Qualquer tempo seu longe de mim é uma ofensa pessoal.
- Eu só tô te conhecendo, entende? Foi legal e tudo. Mas amor? Quem é que ama em uma semana?
- Eu
- Você acha que me ama, mas você não ta me vendo. Você tem uma sala na sua cabeça. Uma sala com um homem sentado no centro dela. Esse homem tem uma xícara de chá e um quadro e um tapete. Você não ama, você faz entrevista de ator pra cena que tem na sua cabeça. Você quer saber exatamente o que eu penso desde que seja exatamente o que você quer que eu pense. Você me chama de frio mas frieza é desconsiderar totalmente a outra pessoa como você faz. É desrespeitar o tempo dessa pessoa. É impor a sua realidade a essa pessoa. A maior vingança de um personagem é ter vida real e eu tenho vida real e você não suporta essa vingança. Toda a sua inteligência não foi capaz de colocar roteiro no mundo e então você anda por aí com suas olheiras e enjôos e medos e dores nas costas e cinismos e maldades. Como se todo mundo te devesse desculpas por não estar se movimentando de acordo com a sua direção. O amor é bem mais humilde que isso. Isso é desejo e desejo torto. E porque ainda não é amor, você cava a terra como um cachorro que precisa esconder o ossinho da dor. Você quer roer eternamente o seu vazio escondido no lugar onde sua flor idealizada nunca nasce e nem nunca vai nascer.
- Tá, depois me chama então.
tati bernardi
Tati Bernardi é escritora, redatora, roteirista de cinema e televisão e tem quatro livros publicados.

Ação contra pedofilia leva ao resgate de 386 crianças

folha de são paulo
Operação prendeu 348 pessoas em vários países
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIASUma grande investigação internacional contra a pornografia infantil e a pedofilia levou ao resgate de 386 crianças e à prisão de 348 pessoas, informou ontem a polícia canadense.
O projeto Spade é uma das maiores operações já realizada, segundo a polícia da cidade de Toronto.
Investigadores e policiais apreenderam centenas de milhares de vídeos que mostram atos sexuais degradantes contra crianças muito jovens, "alguns dos quais são os piores que eles já viram", disse a inspetora Joanna Beaven-Desjardins.
Foram presas 108 pessoas no Canadá, 76 nos EUA e 65 na Austrália, onde seis crianças foram resgatadas.
Professores, médicos e atores estão entre os presos.
As investigações começaram em 2010, em 50 países, como Canadá, Espanha, México, EUA, Grécia e Noruega.

    Barbara Gancia

    folha de são paulo

    Abriram-se as comportas

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    Qualquer um que se disponha a discutir a relação entre a gestão Haddad e eventuais delitos de corrupção ou que queira traçar uma conexão entre atos es­púrios e a administração Kassab deve respirar fundo e fazer uma pausa para reflexão.
    São Paulo é ingovernável, dividida não por bairros nem por zonas, mas por máfias institucionalizadas -nós conhecemos bem: nos transportes, na limpeza, na liberação de alvarás, em qualquer coisa, enfim, que gere dinheiro. E, quando pessoal perce­be que foi tudo dominado, bora in­ventar uma inspeção veicular aqui, uma licitação milionária de reló­gios assinada no apagar das luzes da última gestão ali, qualquer coisa que abra mais uma possibilidade que seja.
    Quando sou abordada na rua, é frequente que me perguntem: "Não entendi sua última coluna, você é contra ou a favor dos "black blocs"? Contra ou a favor dos bea­gles? Contra ou a favor dos mensa­leiros?" Ora bolas, pela graça de Nosso Senhor do Alto da Serra eu não vim ao mundo para ser contra ou a favor. Não tenho esse incômo­do cacoete de reduzir as coisas a mocinhos e bandidos, e não sinto necessidade de ficar encaixotando em embalagens distintas coisas que, no Brasil de hoje, andam indis­sociáveis.
    Não adianta simplificar: o panora­ma político está tão degradado que não dá mais para fazer uma distin­ção entre quem trilha o caminho da luz, e quem o das trevas.
    Até a velha máxima dos tempos do idealismo mais "naïve", "os fins justi­ficam os meios", foi pra cucuia.
    Não se aplica mais nem mesmo a radicais muçulmanos suicidas que, na maioria, são cooptados em troca de dinheiro para a família ou iludi­dos pela ideia de que vão papar um ônibus lotado de odaliscas quando chegarem do outro lado.
    A questão fundamental a ser res­pondida se quisermos entender o que acontece em sucessivas admi­nistrações paulistanas, nos gover­nos estaduais, em todas as maracu­taias que envolvem peixe grande, seja na forma de teles, de megaobras públicas envolvendo suas majestades, as construtoras, nas mudanças de regras no setor imo­biliário ou mesmo no emblemático episódio do mensalão é a seguinte: o que é que a gente entende hoje por "Crime Organizado"?
    Eu duvido que para a presidente da Petrobras, Graça Foster, que es­tá tentando juntar os escombros do cataclisma nuclear que atingiu a es­tatal, a definição de crime organi­zado restrinja-se apenas aos PCCs da vida. Rombos milionários, con­tratos fajutos, não é à toa que as contas da Petrobras estejam sendo questionadas pelo TCU.
    Tá ligado no grau de descaramen­to da turma? As teles tomam mul­tas colossais das agências regulado­ras, não pagam e continuam ope­rando e cometendo as mesmas ir­regularidades. Costas quentes?
    Sem corar, governador do Rio usa helicóptero para ir na esquina comprar papel higiênico ou insta­grama de Paris seu prato de orca mal passada ao molho pardo de ur­so panda em jantar com amigos da construtora a quem favoreceu (a­tenção: isto é sarcasmo, não deve ser levado ao pé da letra). Está co­meçando a ficar difícil conter o es­cracho. A lama anda permeando tudo. Abriram-se as comportas, os profissionais tomaram o país. E não estão conseguindo conter o es­banjamento, a compra de 80 imó­veis, viagens, barcos, carrões...
    A qualquer minuto você pode aca­bar atropelado por uma Ferrari e o segurança que vier atrás só terá o trabalho de jogar seu corpo na lixei­ra, apagar os rastros e dar o fora.
    E Haddad já foi avisado pela cúpu­la do PT. Esse negócio de mexer em vespeiro sempre acaba mal na polí­tica. Collor e Dirceu tentaram e...
    Barbara Gancia
    Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista do caderno "Cotidiano" e da revista "sãopaulo".

    Marcos Troyjo

    folha de são paulo

    Mundo errado, Brasil certo
    Adotar uma retórica reformista profunda desde agora faria muito bem ao Brasil
    O que terá sido pior: um Brasil atingido pela crise de 2008 ou haver por ela passado de maneira quase ilesa?
    O primeiro cenário forçaria o país à revisão da pretensa estratégia de desenvolvimento e inserção internacional. Daria largada às urgentes reformas estruturantes e à indispensável reformulação da política externa.
    O segundo convidou as autoridades brasileiras a um discurso moral. Nosso bem-intencionado modelo é de expansão econômica com inclusão social. A crise foi fabricada por "gente de olhos azuis".
    Nesses últimos três anos, pregamos crescimento em vez de austeridade à chanceler alemã. Sugerimos a Obama corrigir a política monetária dos EUA (sem provavelmente saber que, em suas decisões, o Fed é independente da Casa Branca).
    Denunciamos o "tsunami financeiro" e o "protecionismo monetário" com que os países ricos conflagram "guerras cambiais". Desemprego elevado nos países da OCDE seria prova da fadiga desta fase mais recente do capitalismo.
    Mesmo agora, evidenciadas as limitações de nosso padrão de crescimento, estaríamos sofrendo um "ataque especulativo fiscal" de parte dos donos do "dinheiro grosso".
    Do alto de suas certezas morais, caberia ao país perseverar no rumo em que está. Sua ascensão é inevitável. Até os protestos de junho seriam amostra de que "o Brasil está dando certo". Isso se percebe nas ações e no discurso do governo brasileiro.
    Se o país distrair-se com essas ilusões autocongratulatórias, não perceberá o rearranjo nas camadas tectônicas da ordem mundial.
    Pactos envolvendo EUA, Europa, Ásia e parte da América Latina. Transformação de cadeias de suprimento em redes de produção global. Metamorfose da China. Surgimento da nova Era do Talento que ofusca vantagens comparativas advindas das commodities.
    Mudanças profundas a clamar por uma nova estratégia ""e uma nova retórica. Vários países reorientam seu discurso para "adaptar-se competitivamente ao mundo". Em relações internacionais, fazer --e falar-- são igualmente importantes.
    "Mudança" foi a palavra-conceito da primeira eleição de Obama. "Reforma" é a bússola do futuro europeu segundo Merkel e Cameron.
    "Revolução" é a melhor forma de descrever a agenda reformista que Peña Nieto busca empreender nos bastiões esclerosados de governo e sociedade no México.
    "Grande rejuvenescimento da nação chinesa" é o que Xi Jinping pretende com reformas pró-mercado anunciadas nesta semana.
    "Segunda geração de reformas" (aumento da participação do setor privado na economia) é, para Raghuram Rajan, economista de Chicago e atual presidente do BC indiano, o caminho de seu país à prosperidade.
    Algo do ceticismo que hoje ronda o Brasil emerge da deterioração do quadro fiscal e dos iminentes refluxos da liquidez internacional. Muito se deve, porém, à percepção quanto ao discurso "continuísta" do governo.
    Com a vitória da oposição --ou num surto de lucidez da atual mandatária e equipe--, o Brasil só implementará reformas profundas a partir de 2015. Ainda assim, uma retórica reformista desde já faria muito bem ao Brasil.
    mt2792@columbia.edu

      Mais atenção às Marias da Penha - Mariane Pinotti

      folha de são paulo
      MARIANNE PINOTTI
      Mais atenção às Marias da Penha
      O combate à violência contra a mulher é uma causa sem fronteiras, mas demanda ações locais e um esforço da Justiça para punir com rigor
      A violência em todos os seus níveis e contra toda e qualquer pessoa é inadmissível.
      Quando nos deparamos com situações de violência contra meninas e mulheres, principalmente aquelas com deficiência e consequentemente mais vulneráveis, o sentimento de abominação e desejo de justiça imediata é ainda mais latente.
      Sensação essa que toma proporções enormes quando se é mulher, médica ginecologista, mãe de filhas adolescentes e lida diariamente com pessoas com deficiência.
      A Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, trouxe enorme avanço com penas mais rigorosas, incluindo o aumento de um terço na punição quando a vítima é uma mulher com deficiência. Apesar disso, todos os dias são registrados novos casos.
      Além de sofrerem os mesmos atos de brutalidade que mulheres comuns sofrem, as com deficiência estão expostas a outros tipos de abusos, como laqueadura compulsória, confinamento na própria residência, negação de cuidados necessários e estupro por parte de cuidadores.
      Procedimentos médicos intrusivos, sem fins terapêuticos e administrados sem o livre consentimento da pessoa podem também constituir tortura, cujas motivações podem estar atribuídas ao preconceito.
      É impressionante a história da mulher que deu origem ao nome da lei. Maria da Penha Maia Fernandes foi espancada pelo marido durante seis anos e foi vítima de duas tentativas de assassinato por ciúme. Na primeira, ele atirou nela de costas enquanto dormia, deixando-a paraplégica. Na segunda, empurrou-a da cadeira de rodas e tentou eletrocutá-la no chuveiro.
      Após as agressões, ela o denunciou. O marido foi punido após 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado. Revoltada com a falta de justiça, Maria da Penha conseguiu, com a ajuda de ONGs, enviar o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA), que, pela primeira vez, acatou uma denúncia de violência doméstica. A OEA condenou o Brasil por negligência e omissão. Uma das punições foi a recomendação para que fosse criada uma legislação adequada à violência doméstica.
      O combate à violência contra a mulher é uma causa sem fronteiras, mas demanda ações locais. Recentemente, o prefeito Fernando Haddad assinou o termo de adesão ao programa do governo federal Mulher, Viver sem Violência.
      A região central de São Paulo ganhará, nos próximos meses, uma unidade da Casa da Mulher Brasileira, equipamento público especializado no atendimento às vítimas.
      Na ocasião, foi assinado o termo de adesão ao Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra a Mulher, parceria entre as três esferas de governo com o intuito de fortalecer as políticas públicas, visando ampliar e integrar os serviços de acolhimento e orientação às mulheres nessa situação.
      Como gestora pública de ações voltadas para as pessoas com deficiência, vislumbro que o Estado precisa agir na prevenção, com campanhas educativas, e no amparo às vítimas de abusos. Mas é preciso também que haja esforço da Justiça para punir com rigor qualquer situação de violência em relação às mulheres. Essa é a melhor forma de coibir novos casos.

      Marina Silva

      folha de são paulo
      Medidas de voo
      As pesquisas mostram os brasileiros preocupados com as mudanças climáticas e os problemas incontornáveis que elas causam agora e poderão causar no futuro. Enquanto isso, o Fundo Clima, mecanismo federal de financiamento para o combate ao aquecimento global, tem seus recursos retidos no BNDES. O banco aposta em "campeões" da mineração e de outros setores que nem sempre fazem o dever de casa no cumprimento de condicionantes socioambientais. E concede apenas dois empréstimos, R$ 76 milhões de quase R$ 1 bilhão que recebeu do Fundo Clima.
      A tal descompasso entre a consciência do povo e as escolhas dos dirigentes não basta uma crítica rasa, pois demonstra uma disfunção no sistema que gera más escolhas estratégicas, e não erros pontuais de gestão.
      Para quem gosta de analisar com números: o desmatamento da Amazônia aumentou em 20%, segundo o governo, embora outras pesquisas digam que é bem mais; a inflação oficial corrigida está no limite da meta e cálculos extraoficiais falam em 10%; já o PIB ganha 2,5%, com muita boa vontade.
      O que os números dizem é óbvio: o país desperdiça reservas naturais em troca de crescimento econômico quase nulo. E só pessoas com sérios limites ideológicos poderiam responsabilizar os ambientalistas por tamanho atraso. É o modelo de desenvolvimento que está esgotado e sua gestão política só agrava a situação.
      Parte desse atraso, a lógica da situação pela situação nega os problemas ou os atribui a "intrigas da oposição". Devemos ficar aliviados quando uma voz mais lúcida reconhece a necessidade de enfrentá-los, como fez o presidente Lula nesta semana, no Mato Grosso do Sul, ao dizer que os conflitos com povos indígenas deveriam ter sido resolvidos há muito tempo (incluindo seus oito anos de governo na autocrítica).
      Também parte do atraso, a lógica da oposição pela oposição atribui todos os problemas ao desempenho do governo e os vê como oportunidades eleitorais, esquecendo sua própria responsabilidade na gestão do país e de Estados centrais.
      Existe, porém, um pacto possível com uma agenda de desenvolvimento. O termo de referência já foi dado pela população, nas manifestações de junho, colocando os serviços públicos e o planejamento urbano, entre outras questões da qualidade de vida, no centro da nova agenda. De quebra, denunciou a corrupção, exigiu ética na política e desautorizou a distribuição de fatias do Estado entre partidos "aliados" como método de governo.
      Aos que ganham com a polarização falta humildade para aderir à nova agenda. Mas o povo usará as ruas e as urnas para forçar um realinhamento histórico necessário.
      Um país com tanto potencial de voo não vai ficar parado no tempo.

        Ruy Castro

        folha de são paulo
        Preços da bolha
        RIO DE JANEIRO - Uma vaga em beliche no Rio durante a Copa do Mundo de 2014 poderá custar R$ 1.000 por noite --média com pão-canoa e manteiga à parte, no botequim da esquina. Por esse preço, cerca de 300 euros, um turista brasileiro pode passar um dia e noite de sonho em hotéis como o Adlon, em Berlim, o Excelsior, em Roma, e o Carlton, em Cannes, entre lençóis de algodão egípcio de 400 fios e com 20 variedades de queijos e geleias no café da manhã, tudo incluído na diária.
        A julgar por isso, somente executivos da Fifa, milionários árabes e torcedores de países como Irã, Coreia do Sul e Nova Zelândia poderão se hospedar nos hotéis do Rio durante a competição. Os de Honduras, Etiópia e Burkina Fasso terão de dormir na praia, tomar banho nos postos de salvamento e comer no pé-sujo.
        Para que não se pense que só deu a louca no Rio, tais preços estão também na parede da recepção de alguns hotéis vendidos como de quatro estrelas em várias cidades-sede da Copa, embora, sob qualquer padrão, seu serviço, atendimento e apresentação variem do medíocre ao lamentável. Ninguém me falou --conheço-os de me hospedar neles nos últimos dois anos.
        Pelo que se está pagando por um anêmico galeto na maioria dos restaurantes brasileiros, duas ou mais pessoas comem à tripa forra na Europa ou nos EUA. Não será surpresa se um coco, hoje entre R$ 4 e R$ 5 nos quiosques à beira-mar, chegar a R$ 20 no verão. Qualquer cerâmica fuleira nas feiras populares do Nordeste ou do Sul já tem preços de peças de design alemão ou italiano. E, não demora muito, uma perna na ponte aérea sairá mais caro que um bilhete Rio-Nova York, ida e volta, na classe turística.
        É uma bolha, dizem, e o mercado regulará tudo. Ótimo. Mas, se e quando isso acontecer, um país inteiro poderá se ver subitamente sem escada e pendurado na brocha.

        Helio Schwartsman

        folha de são paulo
        Dois mundos
        SÃO PAULO - O STF encontrou um modo sagaz de conciliar os princípios do devido processo legal com a necessidade de dar uma resposta pública ao problema da corrupção.
        Ao determinar que os condenados no caso do mensalão devem começar a cumprir imediatamente a pena correspondente à parte de suas sentenças que não pode mais ser modificada por recursos, os 11 ministros afastam a ideia de que o julgamento terminou em pizza, como pareceria a muitos se os principais condenados conseguissem protelar o caso por mais um ano, quem sabe mais.
        A decisão, cujo princípio geral foi aprovado por unanimidade, algo raro nesse processo, tem ainda a grande vantagem de não passar como um trator por cima das garantias individuais dos réus, muitos dos quais terão oportunidade de rediscutir o mérito de algumas das acusações por que foram sentenciados.
        Se o sentido geral da sessão de anteontem do STF é positivo, o caso como um todo não esconde as contradições mais incômodas do Judiciário brasileiro. Enquanto os ministros se perdem em doutas digressões filosóficas sobre quando se dá o trânsito em julgado e as penas podem ser aplicadas, no mundo das pessoas que não têm acesso a bons advogados a Justiça tende a ser mais sumária. Um bandido pé de chinelo pode ficar encarcerado desde o instante em que o crime é cometido (se houver flagrante) até o final de sua sentença. Ou mais. O Ministério da Justiça estima que 10% dos 420 mil presos do país ou já cumpriram sua pena e não foram soltos ou teriam direito a algum benefício, como progressão de regime, mas não conseguem obtê-lo porque o sistema é falho.
        É claro que, em qualquer país capitalista, ser mais rico e poder contratar bons defensores ajuda. No Brasil, porém, a diferença no tratamento dado a cada um dos grupos é tamanha que é como se tivéssemos dois sistemas distintos, o que conspira contra a ideia de um Judiciário republicano.

        O fim é o começo - Editorial FolhaSP

        folha de são paulo
        O fim é o começo
        STF decide executar penas do mensalão; que esse julgamento seja um passo na mudança consistente dos costumes políticos e jurídicos
        Um processo que parecia jamais ter fim conheceu, anteontem, seu momento mais esperado.
        Esperado sim, mas não no sentido de ter correspondido aos desejos mais exaltados dos que, desde o princípio, prefeririam a condenação sumária e, talvez, cruel de todos os acusados. Isso não ocorreu.
        Esperado porque, passados seis anos desde seu início, oito depois da revelação do escândalo por esta Folha e dez após os primeiros delitos terem sido cometidos, o país inteiro já parecia conviver de novo com a ideia de que a Justiça não funciona, que a corrupção nunca é punida, que a classe política constitui categoria privilegiada.
        Em mais uma surpresa, entre as inúmeras que pontuaram as dezenas de sessões do mais longo julgamento da história do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu-se na quarta-feira que teriam execução imediata as penas contra as quais não cabe nenhum recurso.
        Embora os ritos burocráticos tenham tomado mais tempo do que se supunha necessário, 16 dos 25 condenados já começarão a cumprir, provavelmente na próxima semana, pelo menos parte das sanções que lhes foram impostas.
        Estão nesse grupo o publicitário Marcos Valério de Souza (prisão em regime fechado) e os ex-dirigentes do PT José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares (os três em regime semiaberto).
        Dissipou-se, assim, a impressão enganosa criada quase dois meses atrás. Com a aceitação dos chamados embargos infringentes pelo STF, houve quem manifestasse completa revolta e desalento.
        O ministro Gilmar Mendes protagonizou então uma das cenas mais exaltadas de todo aquele longo e tenso espetáculo judicial.
        Os crimes em julgamento, insistia, estavam entre os mais graves de que se pode ter notícia numa ordem democrática. Atentava-se --pela compra de votos do Congresso Nacional, com dinheiro público desviado-- contra as instituições, contra o próprio sistema partidário, contra a independência do Poder Legislativo.
        Formara-se um esquema pelo qual um punhado de dirigentes partidários buscava uma continuidade sem contraste no domínio do aparelho de Estado. O escândalo, a que tiveram o desplante de reagir como se fossem vítimas de uma conspiração antipopular, não teria como passar em branco.
        Mas quase aconteceu. A ação da imprensa, o empenho da Polícia Federal, a independência do Ministério Público Federal e a rigorosa condução do processo pelo seu relator, Joaquim Barbosa, tiveram como contrapeso, muitas vezes exasperante, a falácia argumentativa das autoridades petistas, a alta qualificação dos advogados de defesa, o ineditismo da situação processual, a complicadíssima engrenagem da Justiça.
        Dois ministros do Supremo se aposentaram ao longo do processo, podendo ser substituídos por nomes em tese mais sensíveis à conveniência do partido no poder.
        Embargos de declaração, embargos de embargos e embargos infringentes delongaram o julgamento --e ainda delongam alguns casos no tribunal. Os deputados federais João Paulo Cunha (PT-SP), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP) estão entre os nove condenados que aguardam decisão acerca de novos recursos para cumprir suas penas.
        Feitas as contas, serenados os ânimos, não é o pior que poderia ter acontecido. Com todos os indesejáveis atrasos --e uma nova cultura jurisprudencial talvez se esboce a partir desta experiência--, o processo do mensalão chegou a um desfecho equilibrado. Mesmo com os embargos infringentes, pouca coisa mudará --se é que algo de fato mudará.
        O resultado não foi perfeito; foi fruto de uma instituição humana, como foram humanos, por vezes demasiado humanos, os ministros que se contrapuseram, que se ofenderam, que hesitaram, que aceitaram ou não, conforme suas convicções, argumentos e contra-argumentos debatidos e apresentados pela defesa e pela acusação.
        Comprova-se que não foi uma "farsa", como queria a máquina de propaganda petista, o caso do mensalão; que não foi um "tribunal político", como se tentou fazer crer, uma corte dividida ao extremo e atenta até à vertigem para as minúcias do processo.
        Comprova-se também o quanto é desigual o acesso à Justiça no país e o quanto há a aperfeiçoar na legislação, nos costumes, nas práticas políticas e forenses para prevenir e punir os atos de corrupção.
        O país não mudará, infelizmente, assim que os condenados do mensalão começarem a cumprir as penas devidas; vai mudando, contudo, e mudará mais ainda, desde que a sociedade não se aquiete nem consinta.

        Mônica Bergamo

        folha de são paulo

        Pedido de prisão dos réus do mensalão foi precedido de encontro entre governistas

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        O pedido de prisão dos réus do mensalão, nesta semana, foi precedido de um encontro entre a ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e de Luis Adams, advogado-geral da União, com Rodrigo Janot, procurador-geral da República. Um dia depois, Janot assinou a solicitação encaminhada ao STF (Supremo Tribunal Federal) pedindo a detenção imediata dos condenados.
        NO QUINTAL
        A reunião chegou ao conhecimento de José Dirceu e dos deputados José Genoino e João Paulo Cunha, do PT, e se espalhou pelo partido. Foi interpretada como um envolvimento do próprio governo de Dilma Rousseff com a iniciativa, que surpreendeu a legenda e também os condenados. No mínimo, dizem, o governo foi informado com antecedência.
        PAUTA
        Adams confirma o encontro com Janot. E diz que ele nada teve a ver com o pedido de prisão. "Nem tocamos no assunto mensalão", afirma. Segundo o advogado-geral, Janot pediu um encontro com Gleisi Hoffmann. Ela decidiu visitar a PGR (Procuradoria-Geral da República). E pediu que Adams a acompanhasse. Conversaram, segundo ele, sobre "tratados internacionais".
        RUÍDO
        A interpretação de dirigentes do PT e de outros partidos é a de que a prisão dos réus agora favorece Dilma. Na campanha eleitoral, o impacto da medida já estaria amenizado pelo tempo. E ela não teria que responder a acusações de que seu governo se esforçava para garantir a "impunidade" dos petistas.
        NADA PESSOAL
        Uma das pessoas mais próximas de Dirceu na fase do mensalão disse à coluna que, do ponto de vista pessoal, Dilma sempre foi uma das lideranças mais solidárias ao petista.
        ATÉ BREVE
        José Dirceu passou boa parte da manhã de ontem telefonando para familiares -- entre outros, as três irmãs, os irmãos, os três filhos já adultos e as ex-mulheres. Dizia estar bem e pedia tranquilidade a todos.
        CARA...
        A Proclamação da República "foi um dia lamentável na história" do país, na visão de dom Bertrand de Orleans e Bragança, 72, príncipe imperial do Brasil e defensor do retorno da monarquia. "O país foi desviado das vias nas quais devia ter continuado", afirma o segundo na linha de sucessão (se a realeza voltar). Para ele, não há "nada a festejar" hoje. A "prova" do "fracasso absoluto" do regime é que "as pessoas só votam porque é obrigatório."
        ...OU COROA
        O trineto de Pedro 2º se diz preocupado com os "black blocs". Teme que "se aproveitem da inconformidade popular com a República".
        CRÔ ATACA NOVAMENTE
        O cineasta Bruno Barreto exibiu anteontem para convidados o filme "Crô", estrelado por Marcelo Serrado. As apresentadoras Ticiane Pinheiro e Ana Hickmann com o marido, Alexandre Corrêa, e o ginasta Diego Hypolito estiveram no plateia. Os atores Alexandre Nero, Katia Moraes e Karin Rodrigues, que também fazem parte do elenco do longa, foram ao evento no shopping Eldorado.

        Marcelo Serrado estreia filme

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        Bruno Poletti/Folhapress
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        O ator Marcelo Serrado protagoniza o filme "Crô", que teve pré-estreia no shopping Eldorado na quarta (13)
        NOVENTA
        Samuel Klein, patriarca das Casas Bahia, festeja hoje seus 90 anos em uma comemoração tripla. Noventa convidados vão participar da festa de aniversário que acontece junto com o "brit milá" (cerimônia de circuncisão do rito judaico) dos netos Joseph e Benjamin, que completam 45 dias de vida. Os gêmeos são herdeiros de Michel, 60, um dos três filhos do aniversariante, que tem sete netos e três bisnetos.
        A COR DESSA CIDADE
        Uma extensão de 3,5 km de muros no caminho para o Itaquerão será coberta por grafites para a Copa do Mundo. As pinturas, com o tema futebol e torcida, serão feitas ao longo da linha vermelha do metrô por 30 artistas. "É a maior intervenção de grafite da América Latina", diz Raquel Verdenacci, coordenadora do Comitê Paulista da Copa, autor do projeto.
        DA TERRA DA RAINHA
        Cristiana Arcangeli ofereceu jantar em sua casa a membros do Conselho de Moda Britânico, anteontem, nos Jardins. Ela e o marido, o também empresário e apresentador de TV Álvaro Garnero, receberam Anna Orsini e Marits Roberts, respectivamente consultora e diretor de marketing da entidade, e Kimberly Carroll, relações-públicas da Semana de Moda de Londres. As estilistas Barbara Casasola e Lethicia Bronstein e a designer Paola de Orleans e Bragança compareceram.

        Cristiana Arcangeli oferece jantar

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        Bruno Poletti/Folhapress
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        O casal Álvaro Garnero e Cristiana Arcangeli ofereceu jantar em homenagem ao Conselho de Moda Britânico, na quarta (13), nos Jardins
        CURTO-CIRCUITO
        A ópera "La Bohème", que estreia no mês que vem no Theatro Municipal de SP, já tem mais de 10 mil ingressos vendidos.
        O documentário "Blood Money - Aborto Legalizado" entra em cartaz hoje nos cinemas. 14 anos.
        Marina Lima apresenta hoje e amanhã o show "Maneira de Ser", às 22h, no Tom Jazz. 14 anos.
        O espetáculo de dança "Baderna - Reverberações Antropofágicas" inicia temporada hoje, no Kasulo, na Barra Funda. 16 anos.
        com ELIANE TRINDADE, JOELMIR TAVARES, ANA KREPP e MARCELA PAES
        Mônica Bergamo
        Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

        Exibidores apostam mais em filmes sem legendas

        folha de são paulo

         
        FERNANDO MASINI
        DE SÃO PAULO
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        Com o lançamento de mil cópias no país, o filme "Jogos Vorazes: Em Chamas", que estreia hoje, terá cerca de 65% de versões dubladas nos cinemas. Em São Paulo, das 179 salas que exibem a aventura juvenil estrelada pela atriz Jennifer Lawrence, 106 apresentam a cópia falada em português.
        Quem for neste fim de semana, por exemplo, ao Mauá Plaza Shopping, na região metropolitana, vai encontrar o filme em cartaz em quatro salas, sendo que todas exibem a versão dublada.
        Isso se repete em proporções parecidas no caso de filmes como "Homem de Ferro 3" e "Velozes e Furiosos 6", outros blockbusters que estrearam neste ano.
        Editoria de Arte/Folhapress
        A tendência, antes restrita a animações e a obras infantis, agora se estende para produções adultas, entre comédias e filmes de ação.
        Segundo a gerente de marketing da UCI, Monica Portella, houve aumento de cerca de 50% das versões dubladas nos lançamentos da rede de 2012 para 2013.
        Um levantamento da Playarte mostra que nesse mesmo período os números de filmes estrangeiros falados em português passaram de 65% para 75%.
        Para o diretor-geral da Paramount Brasil, Cesar Silva, há um aumento expressivo que se consolidou neste ano.
        A maior parte dos exibidores credita essa mudança a uma demanda do público. "A versão dublada atende também às pessoas que não frequentavam cinema antes", acrescenta Silva.
        Pesquisa feita em 2012 pelo Datafolha por encomenda do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro mostra que 56% das pessoas preferem assistir a filmes dublados nos cinemas, enquanto 37% optam por legendados. Os demais são indiferentes.
        "A aposta em dublagem baseia-se na procura do público por esse formato e na qualidade melhor de som disponível nas salas", diz o diretor de programação do Cinemark, Ricardo Szperling.
        A lógica, no entanto, não é tão simples. Por trás disso, há um fator que contribui para essa expansão: o custo de produção de uma versão dublada, que se tornou mais barato em razão do processo de digitalização dos cinemas.
        Antes, era preciso ter duas cópias em película para projetar o filme em ambas as versões. Hoje, isso não é mais necessário, já que elas cabem num mesmo HD (disco rígido de um computador).
        O hábito de ver astros como George Clooney e Tom Hanks falando português nas telonas, no entanto, encontra resistência por aqui. Grupos como o "Filme Dublado, Não", que mantém uma página no "Facebook", argumentam que há perda de qualidade sonora nas dublagens e a tradução nem sempre é fiel aos diálogos originais.
        Para Pedro Butcher, editor do site "Filme B" e crítico de cinema, é importante encontrar um equilíbrio. "Acho difícil um filme do Woody Allen chegar aos cinemas falado em português", diz.
        Butcher ressalta que os exibidores experimentaram nos últimos anos como seriam as respostas dos espectadores às versões dubladas.
        Hoje, eles já apostam num mercado mais bem definido e levam em conta critérios como localização da sala, gênero do filme e rentabilidade.

        Crescimento e violência, o paradoxo da América Latina

        El País

        Sandro Pozzi
        Em Nova York (EUA)

        • 13.nov.2013 - Bruno Gonzalez / Agência O Globo
          Polícia Civil do Rio de Janeiro durante operação no complexo de favelas da Maré, na zona norte da cidade
          Polícia Civil do Rio de Janeiro durante operação no complexo de favelas da Maré, na zona norte da cidade
        Ninguém discute o sucesso da América Latina em tirar milhões de pessoas da pobreza. Um esforço elogiado pelo Banco Mundial e pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), que está permitindo emergir uma nova classe média que aspira e exige mais de seus governantes. E também pela ONU.
        E, apesar dos avanços econômicos e sociais, é a região mais desigual e insegura do mundo.
        De acordo com os dados do Programa para o Desenvolvimento (Pnud), mais de 30% dos latino-americanos têm que ser criativos para viver com menos de US$ 4 por dia (cerca de R$ 9,30); 16% da população vive na extrema pobreza, com menos de US$ 2,50 por dia; 30% são considerados parte da classe média; e 2% são ricos.
        É verdade que a brecha da desigualdade de renda diminuiu na última década em 16 dos 18 países da região. Mas, dos 15 países com mais desigualdade do mundo, dez se encontram na América Latina. E há também um paradoxo: na última década, a região não só foi cenário de uma grande expansão econômica, como também de uma expansão da criminalidade.
        A insegurança, insiste a ONU, é um desafio compartilhado e um obstáculo para o desenvolvimento social e econômico em todos os países da América Latina. O último relatório de desenvolvimento humano reflete com novos dados como o crime e a violência impactam a região. Há um dado que permite visualizar a dimensão de um problema crescente: mais de 100 mil assassinatos por ano.
        Quer dizer, enquanto a região foi um motor do crescimento mundial, mais de 1 milhão de pessoas morreram assassinadas entre 2000 e 2010. O Pnud denuncia que, em mais da metade dos países analisados, o índice de homicídios aumentou, inclusive nos que têm menores níveis de pobreza. Onze países superam os dez assassinatos por 100 mil habitantes, um nível "epidêmico".
        O relatório elaborado pelo departamento dirigido pelo chileno Heraldo Muñoz, sob a supervisão de Rafael Fernández de Castro, mostra que cinco em cada dez cidadãos percebem uma deterioração da segurança em seu país. Os casos de roubo, por exemplo, triplicaram nos últimos 25 anos. É o crime que mais afeta os latino-americanos.
        Além disso, um em cada três habitantes da região indicou ter sido vítima de um crime com violência em 2012. Essa percepção crescente da insegurança explica, por exemplo, que na América Latina existam 3,8 milhões de vigilantes privados, 50% a mais que agentes de polícia. São os mais armados do mundo. O crescimento da contratação de guardas de segurança é de 10% ao ano.
        A crescente insegurança, como diz o Pnud, faz com que os cidadãos tenham de trocar sua rotina para evitar ser vítimas do crime, o que restringe suas liberdades. Entre 45% e 65% dos pesquisados --dependendo do país-- deixaram de sair à noite e 13% falam na necessidade de mudar de residência, o que equivale a 58,8 milhões de pessoas, aproximadamente.
        A mensagem da ONU é resumida da seguinte maneira pela administradora do Pnud, Helen Clark: "Sem paz não pode haver desenvolvimento, e sem desenvolvimento não pode haver uma paz duradoura". "Esse grave problema tem remédio", acrescenta Heraldo Muñoz, mas explica que "exige visão e vontade política em longo prazo". "Não há soluções mágicas", acrescenta.
        O desafio, segundo Fernández de Castro, é maior porque as ameaças à segurança se entrecruzam. Costuma-se referir ao narcotráfico para explicar o atual nível de insegurança na América Latina. Mas, como indica o especialista do Pnud, as dinâmicas regionais, nacionais e locais são muito mais diversificadas. Ele também aponta que a política da "mão dura" não funciona.
        Talvez o primeiro passo que se poderia dar nesse sentido fosse acabar com a politização que sofre o problema da insegurança, estabelecendo cada país um Acordo Nacional pela Segurança Cidadã entre governo, partidos políticos e sociedade civil. Quer dizer, como indica o embaixador, trata-se de "transformar" a segurança em uma política de Estado.
        A ONU faz assim outras recomendações, que vão além das medidas de controle do crime. Para conseguir uma redução duradoura da insegurança, além de promover um crescimento "includente e equitativo", defende-se reduzir a impunidade fortalecendo a eficácia das instituições de segurança e justiça e políticas públicas que estimulem a convivência.
        A isso se somam ações como regular e reduzir de uma perspectiva integral e de saúde pública o que chamam de "gatilhos do crime", como o álcool, as drogas e as armas. Isso enquanto se elevam as oportunidades reais de desenvolvimento humano para os jovens, se previne a violência de gênero e se protegem ativamente os direitos das vítimas.
        O estudo também menciona o que qualifica como "crime de aspiração", derivado do aumento das expectativas de consumo e relativa falta de mobilidade social na região. O crescimento rápido e desordenado das cidades, junto às mudanças na estrutura familiar e aos problemas de escolarização, acrescenta a ONU, geram condições que incidem na criminalidade.
        A ONU dá números ao impacto econômico da insegurança. A organização calcula que "o excesso de mortes" reduz em 0,5% o potencial da região, o que equivale a cerca de US$ 24 bilhões anuais. A isso se soma a redução da expectativa de vida. Sem contar o alto custo do crime e da violência para as contas públicas.
        Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves