sábado, 16 de novembro de 2013

"Do ponto de vista político, o mensalão acabou", diz o filósofo Marcos Nobre

"Do ponto de vista político, o mensalão acabou", diz o filósofo Marcos Nobre


 
RICARDO MENDONÇA
FOLHA DE SÃO PAULO
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Para o filósofo e cientista político Marcos Nobre, pesquisador do Cebrap e ex-colunista da Folha, o escândalo do mensalão não existe mais como fato político. Acabou só agora, diz, porque ainda havia a equivocada ideia de que a análise dos embargos representaria um novo julgamento.
Nobre diz que a condenação de figuras políticas de destaque é um evento "excepcional" no Brasil e entende que as penas foram mais duras que o convencional. Mas ele não classifica isso como algo ilegítimo. "O que vai tornar ilegítimo é se, em casos semelhantes, no futuro, aplicarem penas diferentes", analisa.
O pesquisador também avaliou o papel de alguns dos ministros no processo. Joaquim Barbosa, diz, representou uma novidade "ambígua". Importante porque "deu vazão a um sentimento social de rejeição à política", mas não ofereceu nada como alternativa.
Para Nobre, Ricardo Lewandowski não representou contraponto ao relator, mas sim Luiz Roberto Barroso, o ministro que, na fase final, se mostrou capaz de "enfrentar midiaticamente a brutalidade de Barbosa". Rosa Weber "deu votos incríveis", mas Celso de Mello, por outro lado, demonstrou "um desequilíbrio flagrante".
Danilo Verpa/Folhapress
Marcos Nobre, cientista político e filósofo
Marcos Nobre, cientista político e filósofo
Folha - Oito anos após a denúncia original, as prisões começam a sair. O que dá para dizer desse caso agora?
Marcos Nobre - O que eu diria é que o mensalão terminou como fato político. Ainda não acabou do ponto de vista jurídico. Mas do ponto de vista político, acabou.
Do ponto de vista político já não estava encerrado antes?
Não. Porque a impressão era de que o exame dos embargos declaratórios e infringentes havia reaberto o julgamento. Na repercussão, na grande mídia, começaram a usar a expressão "novo julgamento". O que, juridicamente, era um equívoco. Mas foi dando a impressão de que agora iria começar tudo de novo. Então agora parece que todo mundo já entendeu que são recursos, que são embargos, e que, de fato, acabou de ponto de vista político. Não sei se você sentiu isso. Eu senti. Estava todo mundo preparado como se fosse começar um novo julgamento.
Se fosse descrever de forma sintética para um estrangeiro, como definiria esse caso?
A primeira coisa que eu diria é: aconteceu uma coisa excepcional, que foi o julgamento de políticos no Brasil com condenação. Para um estrangeiro isso pode parecer assustador. Vão dizer "mas isso não aconteceu no passado?". É difícil comparar com o passado, porque o passado, no caso do Brasil, é muito pouco democrático. A gente teve 19 anos de democracia, entre 1945 e 1964, mas mesmo assim uma democracia mais ou menos, pois analfabeto não votava, tinha partido na ilegalidade, e não teve uma transição de mandato entre um presidente e outro que fosse tranquila. Então é a primeira vez, dentro de uma democracia, que você tem julgamento e condenação de figuras políticas importantes. Isso dá um caráter excepcional para esse julgamento.
E o que achou das penas?
Bom, o novo, como eu disse, é o julgamento e a condenação de figuras políticas importantes. Isso explica também a dureza das penas. É muito? É pouco? Eu diria o seguinte: se fosse um julgamento criminal comum, as penas não teriam sido tão altas. Foi alta porque é inédito.
O Roberto Jefferson lamentou a própria prisão, mas falou que a política pode ser melhor após o julgamento. Há alguma evidência disso?
Não. Nenhuma chance de melhorar a política por causa disso. Porque não é assim que se melhora a política, né?
Alguns falam em exemplo de cima, fim da certeza da impunidade.
Olha, você sabe que eu passei cinco anos estudando direito, né? Depois que entreguei meu doutorado... Eu não acredito nessas teorias do direito penal que acham que a pena tem uma função dissuasória. Não acho que essa seja a função da pena. Mas aí é uma discussão teórica. O que estou querendo dizer é: se fosse comparar com um crime de formação de quadrilha comum, um crime de corrupção comum, e não de figuras públicas destacadas, as penas não seriam tão altas.
Então foi injusto, é isso?
Não, não. A questão não é justiça ou injustiça. Justiça ou injustiça, do meu ponto de vista, é um ponto de vista moral e político, não jurídico. Do ponto de vista jurídico, a gente pode dizer se uma questão é legítima ou ilegítima. Vamos lá: Uma determinada decisão judicial é legal ou ilegal; legítima ou ilegítima. Então uma decisão pode ser legal, porém ilegítima. Uma decisão ilegal acontece, por exemplo, durante uma ditadura. Você pode decidir ao arrepio da lei comum, como aconteceu na Alemanha nazista. Eles mantiveram a Constituição de Weimar e decidiam materialmente contra. A questão [do mensalão] é a da legitimidade. Essa se dá no âmbito de uma discussão pública e política mais ampla. Não é uma pessoa que declara uma decisão legítima ou ilegítima. Eu posso achar, mas é só uma opinião. Agora, pode haver uma reação pública de tal ordem que faça com que uma decisão legal fique ilegítima. Tem um bordão na política brasileira que é "decisão judicial não se discute, se cumpre". Isso é o maior absurdo que eu já ouvi. É o contrário. Não existe nenhuma contradição entre cumprir uma decisão judicial e discuti-la. Então você tem uma discussão de uma determinada sentença que pode vir a aparecer para a sociedade como ilegítima dependendo do debate em torno dela e das forças políticas. Hoje, no jogo político atual, com a correlação de forças atual, ela [a sentença do mensalão] está parecendo como uma sentença legítima. Mas poderia não ser. Dependendo da movimentação do debate público e da sociedade.
Se é assim, o tempo pode eventualmente deslegitimar essas sentenças?
Pode. Esse é o ponto importante. Quando eu digo que as penas são superiores do que devia se esperar, que é inédito, então daqui para frente pode ser que as penas aplicadas [em novos casos] não sejam tão graves. Ou, ao contrário, pode ser que seja esse o padrão para o futuro. Então, dependendo de como esse padrão vai ser interpretado daqui para frente, você também tem a questão da legitimidade ou ilegitimidade dessa decisão. Se tiver condenações posteriores [mais brandas], vão dizer "olha, isso prova que a sentença do mensalão foi dura demais". E quando dizem "foi dura demais", estarão querendo dizer "ela não foi totalmente legítima". Então a questão da legalidade ou ilegalidade você pode resolver. Já a legitimidade vem da luta política que vem depois. É por isso que é importante fazer as duas coisas: cumprir a decisão e discutir. Eu tenho a impressão de que as penas foram duras demais quando comparadas ao julgamento habitual desses crimes com outras figuras. Mas não necessariamente torna isso ilegítimo. O que vai tornar ilegítimo é se, em casos semelhantes, no futuro, aplicarem penas diferentes.
E qual é o seu palpite?
A dureza das penas foi inédita. Isso vai criar jurisprudência e a partir de agora todos os políticos serão julgados a partir dessa métrica? Eu acho que, por um bom tempo, sim. Acho que vai durar. É a questão da legitimação do poder Judiciário. Já que estabeleceu a barra nesta altura, nesta altura ela ficará por um bom tempo. Até que seja alguma coisa comum e normal condenar políticos. Todas as penas foram calculadas no caso mensalão para dar prisão para determinados indivíduos. Elas foram calculadas dessa maneira. Se foram calculadas assim, é porque você estava pensando na dureza da pena, não no sistema Judiciário. Nesse caso, falou-se assim: "não vou pensar no Judiciário como um todo, vou penar apenas neste caso". Então acho que vai manter-se por um bom tempo. Mensalão mineiro? A dureza vai ser igual.
Mas voltando à fala do Jefferson. Na sua opinião, não vai melhorar a política. O que a melhoraria?
Acredito que é importante que isso tudo tenha acontecido para o poder Judiciário. E para legitimidade e legitimação do poder Judiciário. Bom, o Judiciário faz parte do sistema político. É importante que ele seja entendido como parte do sistema político, embora tenha linguagem e códigos específicos. Então, nesse sentido, você tem de fato um Judiciário que cumpre o seu papel. Sem querer discutir o mérito da sentença.
E que lição fica para o Supremo?
A outra coisa é o seguinte: é um absurdo o STF (Supremo Tribunal Federal) ser, ao mesmo tempo, a última instância do Judiciário e uma corte constitucional. Não é possível. Esse julgamento demonstra, de maneira cabal, que a Constituição deveria ser cumprida e que deveria ser criada uma corte constitucional separada, só constitucional. O Supremo não pode ter essa dupla função. É impossível a corte conseguir dar conta disso tudo.
O Supremo fez alguns movimentos para reduzir os processos.
Fez. A história da repercussão geral. A súmula vinculante, que não vincula ninguém. Mas nenhum resultado estrondoso. Não resolveu. Mas, voltando, o julgamento foi muito importante para incluir o Supremo no sistema político. Ficou claro que, embora tenha um código específico, é um membro integrante do sistema político.
Explique isso.
Se você for olhar do ponto de vista da transição brasileira, o primeiro órgão que apareceu como membro do sistema político, por excelência, foi o Poder Legislativo, que foi por onde entraram as primeiras forças de oposição etc. O Executivo veio depois. Faltava o Judiciário. Neste momento então completa-se essa ampliação do sistema político. O Judiciário passa a visto como um órgão do sistema político onde a sociedade tem de tentar influir também. Claro, tentar influir usando o código que é próprio do direito. Mas não dizer "o Judiciário julga e pronto", como se fosse simplesmente uma máquina em que você põe lá as moedas e a saem as sentenças por baixo. Então isso foi importante. Ao mesmo tempo, mostrou que a cultura jurídica pública no país é baixíssima. Por que isso seria importante? Porque em toda democracia que se aprofunda, aprofunda-se também uma certa cultura jurídica pública.
Como dá para perceber isso?
Um exemplo: basta você olhar a importância que tem as séries de TV sobre o Judiciário em países democráticos. De uma certa maneira, você aprende até com a TV como funciona o Judiciário, aprende que aquilo tem uma certa lógica, uma lógica democrática, que tem problemas também. No Brasil não tem séries sobre o Judiciário, certo? O que você viu [no caso do mensalão]? Viu uma cobertura da grande mídia importantíssima, mas também uma dificuldade enorme das pessoas de entender aquela linguagem totalmente obtusa. Ok, entraram alguns elementos que não entravam antes, embargo isso, embargo aquilo, as pessoas aprenderam algum vocabulário. Isso mostra que o Judiciário finalmente entrou no sistema político, mas continua encastelado na sua linguagem, no seu jargão. E valendo-se disso para legitimar sua autoridade. Todas as tentativas de comentários, análises e divulgação foram importantes. Mas mostrou também que a academia brasileira no direito não está conseguindo traduzir os conceitos para a esfera pública de maneira adequada. E aprofundar a democracia é aprofundar a cultura jurídica geral.
Não temos essas séries, mas uma parte do Judiciário aparece na TV, sim, com Datena, Marcelo Rezende. A delegacia e o "prendo e arrebento" aparecem.
É tudo penal. Essa é a medida do baixo teor democrático da democracia brasileira. Porque o único ramo do direito que é realmente universal é o penal. Esse sim atinge todo mundo. Agora, direito social, direito civil, direitos trabalhistas, esses não atingem todo mundo. Isso é importante notar: você teve [no julgamento do mensalão] televisionamento direto, ao vivo, e uma incompreensão radical do outro lado sobre o que estavam falando. O televisionamento direto dá a impressão de uma função democratizante, mas o que faz mesmo é mostrar o abismo entre o bacharelismo do Judiciário e a baixa cultura jurídica do país. E não é tornando os cidadãos bacharéis que nós vamos melhorar isso. Os bacharéis é que precisam falar língua de gente. Por que você consegue isso nos EUA, na França, na Alemanha? Por que lá as pessoas entendem mais [do assunto] e as séries têm excelente audiência?
Por que o escândalo do mensalão nunca gerou o impacto eleitoral desejado pelos opositores do PT?
A resposta é o pemedebismo (¹). Do ponto de vista da sociedade, todo mundo faz, o sistema político inteiro faz. Então a questão é a seguinte: Dado que todo mundo faz, por que eu iria punir exatamente o Lula? Punir aqueles que se apresentavam como representantes por excelência da ética na política passa a ser algo que é suficiente. Então não é necessário mais. Por que punir aquele que não se tem provas objetivas suficientes de que tenha sido o responsável? E de fato ali [naquela época] já estava começando a aparecer políticas sociais importantes para uma enorme parte da população. Já em 2004 tem um crescimento [da economia]. Então, veja, o sistema político é visto como uma pasta homogênea em que todo mundo vale a mesma coisa. Se é assim, por que eu vou punir o sujeito que está diminuindo a desigualdade? Fora o seguinte: você sabe que o PT tem uma base de 30% nesse país que não desce e não sobe. Apoio mesmo. Tem um núcleo duro, um núcleo que segurou o Lula mesmo. São essas as razões. As pessoas não são cínicas, não são hipócritas. Elas pensam: "eu vou punir um cara que está fazendo uma política correta porque eu acho que ele é corrupto igual aos outros?" Claro que se um desses diretamente acusados fosse candidato a presidente, a governador, aí sim seria punido. Mas não é o caso. Eles [os acusados] se retiraram. Alguns ainda foram eleitos deputados, mas para cargo majoritário jamais seriam.
Na defesa política dos acusados, consolidou-se o discurso de que tudo isso é culpa do sistema eleitoral e do modelo de financiamento de campanha, cada ano pior. Isso sensibiliza o senhor?
Não é que os temas não sejam importantes. Mas, que fique claro, que isso [que foi proposto] não é uma reforma política, é uma reforma eleitoral. E restrita. Uma reforma política teria que ter uma reforma profunda do Judiciário, que não enfrentou ainda o problema da corrupção no seu interior, teria que discutir cargo comissionado, esses 22 mil cargos. O que é isso? Não se sabe nem ao certo quantos são. Outra coisa: por que precisa ter uma centralização orçamentária, um poder do governo federal, dessa maneira? São exemplos. Isso tudo seria uma reforma radical da cultura política. Dito isso, é importante discutir reforma eleitoral? É importante. Vai acontecer? Não vai. Não vai acontecer nada relevante. Só tem sentido uma reforma eleitoral no bojo de uma reforma política, no contexto de uma reforma mais ampla.
Mas existe sentido nas propostas de reforma eleitoral? Voto distrital ou em lista, financiamento público?
Existe sentido. O grande sentido é: você vai ou não vai restringir o número de partidos? No fundo, é isso que está em discussão. O pemedebismo tem funcionado assim: há uma ampliação cada vez maior de partidos. Quando abre demais, fecha. Quando fecha demais, abre. Então tem uma lógica de fragmentação e fragmentária. Existe lógica [na reforma eleitoral]. Mas só isso não vai resolver os problemas reais. Seria uma forma muito limitada de resolver.
Voltando ao mensalão, o que achou do comportamento do ministro Joaquim Barbosa, o protagonista do julgamento? Como personagem, ele é uma novidade?
Joaquim Barbosa... Difícil formular sobre esse cara... Ele foi um canal de expressão de uma rejeição difusa do sistema político tal qual ele funciona. Então ele é uma novidade, sim. Um sentimento difuso de rejeição, que não tem conteúdo, não tem conteúdo nenhum, é pouco politizado. No sentido ruim da expressão mesmo. Ao mesmo tempo, ele expressa uma raiva social muito interessante. Uma raiva social contra o sistema político, contra a discriminação histórica da sociedade brasileira. Fico tentando entender como ele virou esse fenômeno de massa... Ao mesmo tempo, essa rejeição difusa da política enquanto tal, porque no fundo é isso, uma rejeição da política, ela se expressa de maneira brutal e grosseira. É mesmo muito interessante. Porque isso introduz um elemento no Judiciário que é novo, pois o Judiciário gosta de se entender, de uma maneira bem machista, num clube de cavalheiros. Coisa que está longe de ser. E não deve ser mesmo numa democracia. Ele rompe com isso. Então o Joaquim Barbosa consegue expressar um sentimento social difuso pela sua brutalidade. E uma brutalidade calculada. Ele sabe exatamente o que está fazendo a cada momento.
Diria que é um avanço?
Do ponto de vista do avanço democrático, isso é ambíguo. De um lado é importantíssimo dar vazão a um sentimento social de rejeição à política tal qual ela é feita. De outro lado, essa expressão bárbara, bruta, não ajuda a construir uma linguagem alternativa ao bacharelismo. Então você tem ou o bacharelismo ou a brutalidade. Em algum lugar entre essas duas coisas a gente tem de encontrar uma cultura jurídica que possa ser partilhada por mais pessoas, a compreensão de que o direito faz parte da democracia, a ideia de que o STF não é o "big brother", certo? O Joaquim Barbosa introduziu o "big brother" no Supremo Tribunal. O lado bom é que [Barbosa] desorganiza a coisa tradicional, rançosa. O lado regressivo é que não constrói uma coisa nova. E foi uma figura que não enfrentou um contraponto. O [ministro Ricardo] Lewandowski é um juiz de carreira. E, note, era um [ex-]promotor [Barbosa] contra um juiz de carreira. O promotor tem um cálculo muito grande do efeito midiático, retórico de sua ação. Então não tinha o contraponto. Ficou o bacharelismo do Lewandowski e a brutalidade do Barbosa, sem nada no meio.
Quem poderia ser esse contraponto ao ministro Barbosa?
Quem de fato fez o contraponto ao Joaquim Barbosa foi o [Luiz Roberto] Barroso, que entrou depois. O Barroso é claramente contraponto ao Joaquim Barbosa porque, primeiro, é advogado. Segundo: de fato, ele tem uma noção de como articular o pensamento e enfrentar midiaticamente a brutalidade do Barbosa, coisa que o Lewandowski não tinha. E ele consegue falar a língua de gente, não é a língua dos seus pares apenas. Ele é uma enorme novidade.
Quem mais te impressionou positivamente?
A Rosa Weber. Acho que ela deu votos incríveis. Pode representar aquilo que possa ser uma nova cultura jurídica, que possa falar para os outros tirando as tecnicalidades. Uma juíza muito impressionante. Mas ela tem de dar o passo da comunicação.
E quem foi o oposto, a decepção?
Teve o desequilíbrio do decano. Celso de Mello foi um dos votos mais lamentáveis que já se deu. Por quê? Celso de Mello, julgando crimes de corrupção, julgando crimes de lavagem de dinheiro, julgando crimes de formação de quadrilha, fundamentou sua decisão com a expressão "atentado à democracia". Isso é de um desequilíbrio flagrante. É algo que considero inadmissível para um ministro do Supremo. Não só ele usou isso. Mas ele foi o grande exemplo de uso do "atentado à democracia". Ora, se existe um atentado à democracia, existe um atentado à Constituição. Então ele estava chamando as pessoas que estavam sendo julgadas de terroristas. Isso é muito grave. Quer fundamentar a sua sentença e se quer dizer algo realmente inovador? Diga qual é o sentido social da pena. Agora, confundir crime de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha com atentado à democracia é algo inaceitável. O que me espanta é que o decano tenha dado o voto mais inaceitável de todos. Achei lamentável. Quem está sendo julgado são indivíduos. Não é o sistema político que está sendo julgado, não são partidos e não é o crime de terrorismo que está sendo julgado. Atentado à democracia? Como a gente interpreta isso? É contra a Constituição: terrorismo. Então as pessoas cometeram mais crimes do que aqueles que elas estavam sendo julgadas? Absurdo flagrante.
E os ministros que são muito identificados com os presidentes que os indicaram, especialmente Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique, e Dias Tóffoli, por Lula?
Ah, sobre eles eu gostaria agora que todas aquelas pessoas que disseram que o sistema de indicação de ministros para o STF era um sistema que favorecia quem estava no poder, que venham a público agora para dizer que erraram. Todas essas pessoas desapareceram. [O julgamento] mostrou que não existe uma relação direta entre a indicação e o voto. Bom, nesses dois casos, Gilmar e Tóffoli, existe. Essa é a identificação do ponto de vista da opinião pública. Então, de qualquer maneira, são 2 de 11. E o ministro Gilmar que, notoriamente, tem bate-boca público com o Joaquim Barbosa, o acompanhou em todos os votos. Então, na hora do jogo não é bem assim. Mas não só. O Gilmar Mendes foi "low profile" porque o Joaquim Barbosa tomou todo o espaço. Quem conseguiu ficar num espaço entre o Joaquim Barbosa e o Lewandowski foi o Marco Aurélio [Mello], que ficou jogando entre os dois. Tanto é que, quando Barroso se pronuncia, quem vai contra ele é justamente o Marco Aurélio, como se estivesse falando "olha, esse lugar aqui é meu". Já o Dias Tóffoli, veja o último voto dele. Indicado pelo Lula, tudo isso, agora dá um voto contra [os acusados]. Então prova que não tem relação.
(1) A expressão "pemedebismo" foi desenvolvida pelo próprio Marcos Nobre para descrever um certo comportamento político conservador que, na sua interpretação, tornou-se dominante a partir dos anos 80 e, a partir do PMDB, teria alastrado-se para quase todos os partidos. Diz respeito ao adesismo a qualquer governo, à falta de enfrentamentos diretos, a forma dissimulada de sabotar iniciativas de transformação social, entre outras coisas

'Roberto Carlos é censor nato e hereditário', diz Ruy Castro em festival de biografias

'Roberto Carlos é censor nato e hereditário', diz Ruy Castro em festival de biografias

FABIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL A FORTALEZA.
Enquanto revelava seus segredos e métodos de biógrafo consagrado, Ruy Castro criticou Roberto Carlos, Chico Buarque e Caetano Veloso durante debate na tarde/noite desta sexta (15/11), durante o 1º FIB (Festival Internacional de Biografias), em Fortaleza.
O colunista da Folha chamou Roberto de "censor nato e hereditário", disse que Chico é "uma péssima fonte de informação sobre si mesmo" e lembrou que Caetano, defensor com os colegas do direito à privacidade, já apareceu nu ao lado da mulher e do filho na capa de um disco ("Jóia").
Ruy é um dos pontas de lança do movimento de biógrafos, editores e intelectuais para a alteração dos artigos do Código Civil que abrem a biografados e seus herdeiros a possibilidade de barrar na Justiça a publicação de biografias que não tenham sido previamente autorizadas.

Festival Internacional de Biografias

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Henrique Kardozo/Estúdio Pã/Divulgação
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Ruy Castro (esq., com microfone) ao lado de Mário Magalhães no Festival Internacional de Biografias, em Fortaleza
O grupo tenta, no Supremo Tribunal Federal e no Congresso, alterar a legislação, mas enfrenta a resistência de artistas de peso da MPB, como Chico, Caetano, Roberto e Gilberto Gil, para quem a liberdade de expressão deve ser conciliada com o direito à privacidade.
O autor de "O Anjo Pornográfico" (biografia de Nelson Rodrigues), "Estrela Solitária" (biografia de Garrincha) e "Carmen: Uma Biografia" (Carmen Miranda), entre outras obras, conversou sobre o tema "Ciência e arte da biografia" com o jornalista Mário Magalhães, autor de "Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo" e curador da programação literária do FIB.
ATAQUE A ROBERTO
Quando Magalhães recordou que Roberto Carlos já havia processado o colega de mesa por causa de um perfil publicado nos anos 1980 na revista "Status", ação na qual Ruy acabaria condenado, o escritor atacou o cantor.
"Roberto Carlos é um censor nato e hereditário, ele censura até a si próprio. Censurou o primeiro LP que ele gravou, censurou o "inferno" [em "Quero que Vá Tudo pro Inferno"]. Na Nova República, quando o governo Sarney proibiu o filme "Je vous Salue, Marie", de Godard, Roberto Carlos disse que tinham feito muito bem."
O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende Roberto Carlos, disse à Folha que não responderia a Ruy.
"Pregamos o direito à liberdade de expressão e à intimidade. Ele [Ruy] tem todo o direito de se expressar. Não vou entrar em debate com ele", afirmou Kakay.
Ruy criticou o artigo publicado por Chico no jornal "O Globo" em defesa do direito de preservação da privacidade dos artistas e que continha erros (ele disse que não deu uma entrevista que havia dado e confundiu episódios históricos).
"Do Roberto Carlos espera-se qualquer coisa, mas nunca imaginei que Chico Buarque fosse fazer o que fez. O artigo dele é lamentável, cheio de erros. Chico Buarque é uma péssima fonte de informação sobre si mesmo."
Ruy criticou Caetano quando Magalhães perguntou qual era o limite de invasão de privacidade do colega.
"Eu não tiro foto pelado com minha mulher e meu filho e ponho na capa de disco. Caetano fez isso."
Em seguida, fez menção a uma reportagem da revista "Caras" com Caetano e sua então mulher Paula Lavigne.
"Estão nos confundindo com revistas de fofocas, revistas essas para as quais eles já abriram inúmeras vezes as portas das suas casas para serem fotografadas, deixaram à mostra sua intimidade, descreveram os tratamentos físicos de suas mulheres para se tornarem as sereias que elas são. Durante várias ocasiões, não tiveram nada contra essas revistas, talvez não tenham, porque essas revistas lhes ajudam a vender discos, fazerem shows etc. Agora, uma biografia que leva três, cinco anos para ser feita, não pode."
DESAFIO A DJAVAN
Questionado como Chico, Caetano e Gil adotaram tal posição, Ruy afirmou:
"Eles foram vítimas de um acordo entre Paula Lavigne e Roberto Carlos: se Roberto Carlos os apoiasse na questão do Ecad [na criação de um lei para o controle externo da arrecadação de direitos autorais], eles o apoiariam na questão das biografias não autorizadas."
"Mas eles não contavam que pudéssemos ser eficientes no uso da única arma que temos, que é a palavra. Eles não contavam que a opinião pública, que eles dominam e manipulam há décadas, se voltaria contra eles pela primeira vez."
O biógrafo ainda fez um desafio a Djavan, outro integrante da causa dos artistas, que disse que biógrafos ganham "fortunas": "Eu trocaria os direitos autorais de todos os meus livros pelos de uma música de sucesso do Djavan".
CIÊNCIA E ARTE
Segundo Ruy, ciência e arte são duas palavras que resumem bem o fazer biográfico.
"Uma pessoa pode se tornar um biógrafo aprendendo a parte mecânica da coisa. Mas só essa ciência não basta. Não é qualquer pessoa que tem fixação pela informação e não desiste enquanto não localiza uma fonte. Ou você nasce com isso ou não poderá ser um biógrafo."
Disse que, se houvesse curso de biografia na universidade brasileira, o aspirante a biógrafo teria de ter aulas nas faculdades de jornalismo, de história e de letras.
Indagado se um biógrafo pode imaginar cenas e flertar com a ficção, respondeu: "Sou absolutamente radical nesse ponto. Se tiver um pingo de imaginação, já fecho o livro. Biógrafo tem de trabalhar com informação. Sem informação não há biografia. Não há necessidade de inventar. A graça para o biógrafo é descobrir a informação."
CAUSA GANHA
Antes do início do debate, Ruy Castro afirmou que a disputa para modificar a lei que permite censura prévia a biografias no Brasil está resolvida em favor da liberdade de expressão.
"A tese da liberdade de expressão, da biografia independente, está ganha. A opinião pública já se manifestou favorável [à tese]. O que falta definir agora são as filigranas jurídicas", disse o escritor.
Tanto o Supremo quanto o Congresso analisam a alteração da lei.
Embora afirme que poderá assinar uma carta-manifesto endereçada aos ministros do Supremo, ao Congresso e à sociedade --sugerida por Fernando Morais e por ele batizada de "Carta de Fortaleza"--, Ruy diverge do colega sobre a necessidade do documento, justamente por considerar que o principal da disputa está resolvido.
"Não sei se precisa de mais carta, mais manifesto [já houve alguns de intelectuais e acadêmicos desde o início da controvérsia]."
"Mas se tiver uma carta, você assina?"
"Assino."

Crianças do Xingu brincam de caçar antas e outros animais na floresta

GABRIELA ROMEU

COLABORAÇÂO PARA A FOLHA de são paulo, EM ALTAMIRA (PA)
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Ao lado de um barco, uma anta caçada há pouco era cortada em pedaços. Algumas crianças espiavam os dentões do animal, outras carregavam sua porção do bicho para casa.
A cena ocorreu na aldeia Koatinemo, do povo asurini do Xingu, que fica a algumas horas de barco da cidade de Altamira, no Pará. Na região, vivem diversos grupos indígenas -xicrin, arara, juruna e outros.
Arauari é um dos meninos que estavam por ali, brincando de mergulhar como flecha no rio e de cruzar as corredeiras. O garoto, que não sabe ao certo sua idade, mas calcula ter uns 11 anos, contou que é também um caçador.

Quintais - Infância no Xingu

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Samuel Macedo/Projeto Infâncias
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Menina mostra panelinha de barro que fez ao lado das mulheres da aldeia asurini
Desde pequeno, Arauari acompanha o pai e o irmão em caçadas na floresta. Saber andar na mata, capturar a caça e trazer o animal para casa fazem parte de seu aprendizado.
A hora de sair para caçar é à tardinha, quando entram na mata e esperam num lugar até anoitecer. "A gente vai aonde está a comida do bicho", disse.
Um dia foi assim: "Ficamos bem quietos. Deu oito horas, e a anta apareceu -'tuc, tuc, tuc'", imita o som da pisada do animal. "Meu irmão deu três tiros." O bicho caiu. "Foi pesado para carregar para a aldeia."
Também caçam paca, porcão e jabuti. "Um dia peguei três jabutis", disse orgulhoso. Ele já conhece os perigos na mata. "Quando o bicho está com filhote, fica bravo." O jeito é subir rapidinho no açaizeiro para se proteger.
De volta à aldeia, "quando a caça é grande", é repartida. Nos dias em que estive lá, caçaram uma paca e três antas. E até os visitantes ganharam um bom pedaço. Concordo com Arauari: carne de paca é a melhor. E bem mais gostosa do que as latinhas de atum que eu havia levado na bagagem e me esperavam para o jantar.
GENTE DE VERDADE
Os asurinis são uma população indígena tupi contatada pelo homem branco em 1971, quando começou a construção da rodovia Transamazônica.
Nessa época, o grupo foi batizado de asurini, que quer dizer "vermelho", devido ao uso do urucum (fruto) para pintura do corpo. Ficou conhecido como asurini do Xingu, pois no Tocantins vivem outros asurinis. Mas o grupo se chama de awaeté, que quer dizer "gente de verdade".
Os asurinis são conhecidos pelos bonitos desenhos geométricos pintados nos corpos e em panelas de cerâmica.
MAPA DO QUINTAL
Um grupo de 150 asurinis vive na Terra Indígena Koatinemo, na cidade de Altamira (PA), localizada no Médio Xingu. Em Altamira, há mais de 3.700 índios em 12 terras indígenas
Nos anos 1970, os indígenas da região passaram por transformações provocadas pela abertura da rodovia Transamazônica. Agora, têm de lidar com a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que pode dificultar a pesca e o transporte no rio Xingu.

Preocupação ambiental eleva valor de empresas, diz presidente de ONG internacional Scott Poynton - RICARDO MIOTO

 FOLHA DE SÃO PAULO
Muitas empresas procuram ONGs da área ambiental apenas para fazer "greenwashing" -marketing verde e do bem sem efeitos práticos maiores-, critica o australiano Scott Poynton, presidente da ONG internacional The Forest Trust.
A entidade ajuda empresas a "limpar" a sua cadeia de produção, selecionando, por exemplo, fornecedores que não causam desmatamento.

Scott Poynton, presidente da ONG The Forest Trust
Scott Poynton, presidente da ONG The Forest Trust
Poynton comenta ainda as dificuldades de ao mesmo tempo certificar as boas práticas ambientais das empresas e depender dos recursos oferecidos por elas.
No Brasil, a ONG trabalha com empresas como Natura, Grupo Pão de Açúcar e Camargo Corrêa.
*
Folha - Como a organização se banca? Vocês recebem dinheiro das empresas?
Scott Poynton - Sim. Cerca de 90% da nossa receita vem daí. Outros 10% são de fundações que nos apoiam.

*
Como vocês avaliam as empresas cujo dinheiro mantém a ONG, não pode surgir um conflito de interesses?
Você tem de ter valores. E é importante deixar claro que você não quer parceiros a qualquer custo. Nós falamos: "Não trabalhe conosco se você não quer mudar".

Nosso trabalho é ajudar as empresas a limpar a sua cadeia de produção, tanto pelo aspecto ambiental quanto pelo social.
Ajudamos a implementar novas políticas, por exemplo, na gestão ambiental de fazendas e de florestas. Quem são os fornecedores? Como eles trabalham?
Nosso objetivo não é dizer à empresa "vocês têm de salvar o mundo", mas "ser sustentável aumenta o valor da sua marca, reduz seu risco, aumenta a receita". Se a empresa entende isso, tudo muda.
Tivemos experiências ruins com empresas que não queriam mudar -mudar é desconfortável para muitas. Em geral, as empresas não reagem bem a críticas. E nós tentamos ser muito transparentes no que estamos fazendo.
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Mas não há muitas empresas que procuram apenas "greenwashing"[propaganda verde, sem que existam ações ambientais de fato]? A sustentabilidade não acaba sendo um conceito mais ligado ao marketing do que às operações?
Sim, há muito "greenwashing", uma busca por melhorar a imagem. E acho que muitas empresas procuram ONGs para isso.

*
O que vocês fazem quando a empresa não muda? Falam para ela ir embora?
Nós somos mais cuidadosos com relação a com quem trabalhamos agora. No começo, há 15 anos, tivemos dificuldades com algumas empresas. Uma grande empresa nos ofereceu uma doação generosa para que continuássemos como parceiros. Não aceitamos, claro, e terminamos a parceria.

Embora as empresas com que deixamos de trabalhar saiam da nossa lista de parceiros no site, evitamos um anúncio público, pois um dia elas podem mudar e voltar a buscar uma cadeia de produção sustentável.
*
Nos últimos anos a sustentabilidade, especialmente no que se refere a aquecimento global, parece ter perdido algum apelo na opinião pública e entre os políticos. Nos EUA, muitos parlamentares questionam o aquecimento global, por exemplo. A agenda ambiental anda meio fora de moda?
Por um lado, eventos como o tufão das Filipinas, com milhares de pessoas mortas, mostram que devemos ter cuidado com a mudança climática. Por outro, há essa tendência política da qual a Austrália é um exemplo.

O primeiro-ministro que acaba de assumir [o conservador Tony Abbott] basicamente não acredita no aquecimento global e cortou todo o financiamento de programas de redução das emissões de carbono.
No fim das contas, de maneira geral os governos que têm sido eleitos não encaram o problema de forma enfática. Há uma falta de ação. O problema é que o desafio do aquecimento global tem de ser enfrentado, não se pode deixar a conta para os nossos netos.
*
Está começando agora a 19ª Conferência do Clima da ONU. O senhor está pessimista?
Acho que o mais importante sobre isso é perceber que dificilmente uma solução de cima para baixo vai ajudar contra o aquecimento global.

Creio que consumidores mais conscientes exigirão das empresas uma nova atitude, uma maior consciência sobre as suas cadeias de produção. 

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

Físico paulista conta em livro como a ciência desvendou o que é a matéria

 
MARCELO GLEISER
COLUNISTA DA FOLHA



Em julho do ano passado, o mundo da ciência foi sacudido por uma incrível descoberta: uma partícula de matéria, conhecida na mídia como a "partícula de Deus", foi descoberta por cientistas no Centro Europeu de Física Nuclear, ou Cern, em Genebra.
Claro, a menção de caráter teológico a uma descoberta científica amplificaria qualquer achado. Teriam cientistas encontrado Deus?
No caso, Deus tem pouco a ver com a história. O nome vem do livro do prêmio Nobel Leon Lederman "A Partícula Deus". Segundo ele, um conhecido piadista, a ideia era dar o título "A Partícula Desgraçada" (do inglês "The Goddamn Particle"), mas seu editor sugeriu tirar o "desgraçado" (damn) do título.
Como resultado, pessoas de fé se iludiram com a descoberta, achando que finalmente a ciência tinha obtido prova da existência de Deus.
Felizmente, Rogério Rosenfeld, professor do Instituto de Física Teórica da Unesp, trabalhava no Cern na época da descoberta e decidiu escrever um livro explicando-a de forma acessível.
O resultado, "O Cerne da Matéria", é um exemplar notável de divulgação científica, escrito por um brasileiro de renome internacional.
É comum, quando falamos de ciência para o público não especializado, esquecer que, para a maioria das pessoas, os achados científicos, especialmente os da ciência mais afastada do nosso dia a dia, têm um ar de mistério e impenetrabilidade não tão diferente de pronunciamentos religiosos. Escuto com frequência: "Por que devo acreditar no que me diz um cientista?".
A resposta é que, em ciência, descobertas são anunciadas com tremendo cuidado e declaradas corretas apenas após receber o apoio da comunidade. São obtidas por meio de medidas extremamente precisas, verificadas por grupos independentes.
No Grande Colisor de Hádrons (LHC), a gigantesca máquina usada no Cern para estudar os menores componentes da matéria, há dois grupos que medem de forma diferente os mesmos eventos de colisão entre partículas. Com isso, um pode verificar se o seu resultado coincide ou não com o do outro.
No livro, Rosenfeld conta de forma clara e energética a história do Cern, da física de partículas nos séculos 20 e 21, culminando com a descoberta do bóson de Higgs, que nada tem a ver com Deus. Ele é a partícula elementar que faz as outras adquirirem massa.
O autor conta também como essas descobertas são feitas, e porque são motivo de orgulho dos físicos. Mostra como se faz ciência de ponta e porque deve ser feita, mesmo que não leve diretamente a aplicações tecnológicas.
Vale lembrar que a World Wide Web foi criada no Cern, para facilitar a comunicação entre físicos e engenheiros trabalhando nesses experimentos. Muitas das descobertas mais essenciais da ciência não foram antecipadas.
Com lucidez, Rogério discorre sobre a importância da descoberta do Higgs e das outras partículas que o LHC procura, mostrando que o trabalho dos cientistas está só começando. Mostra o que sabemos sobre a composição da matéria e indica quais ideias permanecem especulativas, ao mapear o campo da física das altas energias.
Sabemos que resta muito a aprender, visto que as partículas conhecidas respondem por apenas 5% da matéria que preenche o Cosmo. Os outros 95% permanecem um mistério, algo que o LHC pode ajudar a investigar.
De qualquer forma, é sorte nossa termos cientistas como Rogério Rosenfeld, com a generosidade de dividir conosco um pouco do que sabem. Sua obra é leitura essencial.

O CERNE DA MATÉRIA
AUTOR Rogério Rosenfeld
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 39,50 (208 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo 

Jornal pessoal de cronista ganha reedição - Raquel Cozer

Jornal pessoal de cronista ganha reedição
'Diário da Tarde', de Paulo Mendes Campos, publicado em livro há três décadas, sai agora em formato tabloide
Publicação do IMS segue o formato idealizado pelo autor, com seções literárias, esportivas e de frases
RAQUEL COZER COLUNISTA DA FOLHA
Paulo Mendes Campos foi fundador, diretor de Redação e revisor do "Diário da Tarde", conforme se lia no expediente da publicação. Era ainda colunista, repórter e editor, espécie de funcionário dos sonhos de todo dono de jornal. No caso, dele mesmo.
O projeto não durou. Suas 20 edições vieram a público em uma só ocasião, em 1981, reunidas em livro da editora Massao Ohno, em parceria com a Civilização Brasileira.
Mas ganhou status de preciosidade para os admiradores da obra do cronista e poeta mineiro (1922-1991), sem nunca ter chegado aos leitores no formato que o autor imaginava, de tabloide.
Essa lacuna histórica é reparada pelo Instituto Moreira Salles, que lança edição especial com projeto gráfico de Daniel Trench e ilustrações de Veridiana Scarpelli. O evento será na segunda, no Rio, com debate de Renato Terra, da revista "piauí", e Xico Sá, colunista da Folha.
É verdade que, como dono e senhor do "Diário da Tarde", Mendes Campos se deu a liberdades como reutilizar material veiculado em jornais de verdade, por assim dizer.
É o caso, em especial, dos textos das duas principais seções de cada uma das edições, "Artigo Indefinido", de ensaios literários, e "O Gol É Necessário", de crônicas.
A parte literária trazia recortes variados como uma interpretação do "Cântico dos Cânticos" bíblico, um perfil de Virginia Woolf e um bate-papo imaginado entre Cecília Meireles e Emílio Moura.
Este, sem tirar nem pôr uma vírgula em versos de um e outro poeta, resultou em um extenso diálogo com falas como "Ele: Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda. Ela: Quero apenas parecer bela".
Já as crônicas de futebol desde a primeira edição lamentavam: "Vai-se tornando avaro esse esporte, pois, vivendo às custas do consumidor, nega a mercadoria pela qual este paga, não à vista, mas antes de ver: gols".
CAUSOS E FRASES
Cada uma das edições incluía ainda a seção "Poeta do Dia", com versos dos criadores preferidos de Mendes Campos, como Paul Verlaine, Dylan Thomas e T.S. Eliot.
E, para completar, cinco seções divertidas, com causos e frases de efeito, "Bar do Ponto", "Pipiripau", "Grafite", "Suplemento Infantil" e "Coriscos". Ao leitor que folhear o "Diário da Tarde", estes certamente ressaltarão.
No "Bar do Ponto" da edição nº 5, por exemplo, o autor determina: "O poeta é a criança; o romancista é o adolescente; o ensaísta é a madureza; o crítico é a velhice".
Na mesma página, a seção "Pipiripau" parece feita dia desses: "Nunca se imprimiu tanto. E nunca se aproveitou tão pouco [...]. A livralhada sexual é idiota; a violenta é pueril; a de terror não chega a impressionar crianças; a esotérica é de dar pena; a fofoqueira ainda pode distrair, mas mente pelos dedos".

Regressão continuada - Helio Schwartsman

folha de são paulo
sÃO PAULO - Depois do prefeito Fernando Haddad (PT), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) resolveu ampliar o número de séries em que o aluno poderá ser reprovado, desfazendo parte da progressão continuada, que já foi bandeira de administrações petistas e tucanas.
Esse é um daqueles temas permanentes. Ele vai e volta à agenda porque há um desacordo original entre o que a maioria das pessoas pensa sobre educação e a já respeitável massa de dados empíricos acerca do que funciona e não funciona. Lamentavelmente, políticos ouvem mais a heurística popular do que a ciência.
As pessoas, especialmente pais, gostam da ideia de repetência porque imaginam que ela assegura que o aluno aprenda o que foi ensinado. Seus conhecimentos são testados de modo objetivo e, se ele não souber o bastante, será retido, garantindo que todos os que concluam seus estudos de fato dominem o currículo.
O problema com esse raciocínio é que ele é desmentido pelos fatos. Ou melhor, pode até ser que valha para o ensino superior e as séries mais altas, mas não funciona no ensino elementar. Um conjunto de metanálises (estudos que comparam dezenas, às vezes centenas, de estudos) mostra que a retenção não apenas não cumpre o objetivo esperado como pode até piorar o desempenho dos estudantes. Vale a pena aqui conferir os trabalhos de Shane Jimerson.
O repetente pode até se sair um pouquinho melhor num primeiro instante, mas esse efeito desaparece em dois ou três anos. No longo prazo, sua performance tende a ser pior do que a de grupos de alunos semelhantes que foram promovidos.
Considerando que a reprovação tem alto custo financeiro (equivalente a 11% do que se investe na rede básica no Brasil) e faz aumentar os índices de evasão escolar, fica difícil defendê-la em termos racionais.
Alguém já afirmou que o problema da democracia é que ela sanciona os piores vieses cognitivos dos eleitores.
hélio schwartsman Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. 

Painel das Letras - Raquel Cozer

folha de são paulo

O estreante de US$ 2 mi

 Não é juvenil, erótico nem de fantasia o título que, nos últimos dias, foi comprado pela gigante americana Knopf por quase US$ 2 milhões (cerca de R$ 4,6 milhões) --bem mais do que a Vintage Books pagou, em 2012, pelos três livros da série "Cinquenta Tons". A obra é "City on Fire", romance de estreia do crítico Garth Risk Hallberg, 34. Aborda a Nova York dos anos 1970, tem 900 páginas e levou o autor a ser comparado, entre editores que leram trechos para participar do leilão, a Michael Chabon e Thomas Pynchon. No Brasil, quem venceu a disputa (com valores não divulgados) foi a Companhia das Letras. Os direitos cinematográficos ficaram com Scott Rudin, produtor de "Frances Ha".
Fenômeno incompreendido
Publicações internacionais vêm tentando entender o fenômeno "City on Fire", que, representante de uma literatura que se propõe séria, dificilmente venderá tanto quanto "Cinquenta Tons".

O site Vulture fez uma lista com "28 coisas que você pode especular" sobre o livro --já que o autor, colaborador do "New York Times" e do site "The Millions", não dará entrevistas até o lançamento.
Entre outras coisas, cita que o autor publicou em 2007 uma novela com 63 vinhetas associadas a fotos (que não precisam ser lidas na ordem) e que ele adora usar neologismos, como "N3J" (para "novo novo novo jornalismo").
Infantil
Divulgação
As aventuras do garoto Archibald, neto de exploradores famosos, e seus amigos Adelaine e Oliver (imagem) estão no centro de 'Doldrums', de Nicholas Gannon, comprado pela editora WMF Martins Fontes.
Biografia nacional
Aos 80 anos recém-completados, o sociólogo Francisco de Oliveira prepara para a Boitempo a "Biografia Não Autorizada do Brasil", que abordará sociedade, economia e política dos anos Vargas aos dias de hoje.

A obra, prevista para março, promete levantar debate na esquerda ao destacar a necessidade de uma revolução social num país ao qual faltam forças para isso e criticar um PT que se afastou dos ideais, inscrevendo o Brasil numa "hegemonia às avessas" --em que, segundo ele, o dominado conduz a política em benefício do dominante.
Som
"Sejamos todos musicais", reunião de crônicas de Mário de Andrade na "Revista do Brasil", publicadas de 1938 a 1940, quando o paulistano morava no Rio, sai em março pela Ateliê Editorial.

Som 2
Nos textos, o modernista aborda nomes como Radamés Gnatalli e Camargo Guarnieri e compara a produção carioca com a paulistana. "Não acho que se faça aqui música inferior a de São Paulo. [...] Mas a orientação da música pública que se faz no Rio e a sua qualidade é incomparavelmente inferior", escreveu, em 1938.

Menos é mais
Publicado apenas em 2009 na França, com exíguas 64 páginas, "O Corpo Utópico, as Heterotopias" traz Michel Foucault (1926-1984) mais confessional e próximo da literatura.

Menos é mais 2
O volume, feito a partir de conferência de 1966, ganhará edição bilíngue pela N-1 Edições.

Abuso
Da autora de "Assédio Moral", a Bertrand Brasil publica, em 2014, "Abuso de Fraqueza e Outras Manipulações". No livro, a psiquiatra Marie-France Hirigoyen mostra como a
capacidade de manipulação torna as pessoas vulneráveis.

Água
A tradicional livraria nova-iorquina Strand, famosa por oferecer as melhores pechinchas do ramo, anda mal na fita desde que o site DNAinfo noticiou o uso, pela loja, de um sistema de irrigação para tirar moradores de rua debaixo de seu toldo. A intenção foi confirmada por uma vendedora, mas depois a gerência disse que a ideia era só lavar a calçada.


painel das letras Raquel Cozer é jornalista especializada na cobertura de literatura, mercado editorial e políticas de livro e leitura. É colunista e repórter da "Ilustrada", na Folha, desde 2012, com passagem anterior pelo caderno de 2006 a 2009. Foi repórter do "Sabático", no "Estado de S. Paulo", e do jornal "Agora", do Grupo Folha. Também trabalhou nas editoras Abril, Globo e Record. Escreve a coluna Painel das Letras, aos sábados.

Bom Senso,seu moço - Xico Sá

folha de são paulo
 Amigo torcedor, amigo secador, no princípio foi aquele abraço coletivo, o grito de alerta, um "se liga", cartola, um "tome tento", seu Marin, um olha o bom senso, dona Globo. Nesta semana veio o gesto político de classe mais contundente da história do futiba, o manifesto no campo de batalha, e não era apenas por 20 segundos --se a regra é clara, a desobediência civil ficou explícita.
Você mudava de canal e lá estava o mesmo gesto, só trocava o nome dos times, com um bate-bola em que o pé-de-obra, como preferia chamar o doutor Sócrates, mostrou quem manda no jogo.
Rogério Ceni foi na mosca, na sua assertiva: "Isso aqui tem uma conotação muito maior do que imaginam". Bote maior nisso. E, em Itu, óbvio ululante, o gesto foi hiperbólico, gigantesco, naquele São Paulo 2x0 Flamengo.
Ah, se temos que esperar pelo fim da novela, como não esperar mais um pouco pelo início do embate que interessa. Nunca esperei com tanto gosto. Abri uma cerveja e brindei aos velhos rebeldes que abriram caminho, cavaleiros muita vezes solitários no faroeste da cartolagem.
Tintim, Paulo Cézar Caju, tintim, prezado amigo Afonsinho --o homem do passe livre ainda nos anos 1970--, tintim além-mar, meu caro Eric Cantoná, tintim, de novo e sempre, Sócrates Brasileiro, tintim, velhos e novos rebeldes da pelota.
Naquele minuto de Itu passou pela cabeça um longa-metragem. Um jantar inteiro, um dos últimos com o doutor corintiano, em um japonês da ministro Rocha Azevedo, em São Paulo, o olhar atento do zagueiro Paulo André em troca de ideia com o filósofo do calcanhar greco-paraense. Este cronista envelhecido em barris de bálsamo, Kátia Bagnarelli, Vladir Lemos e Mazinho Chubaci --o Sancho Pança do Magrão quixotesco--, por testemunhas oculares da história.
Nesta quarta, guarde a data, 13 de novembro do ano da graça de 2013, isto é história, na noite em que o cosmonauta russo Yuri Gagarin repetia "a terra é azul", em louvor aos cruzeirenses, apontando o dedo lá de cima, mochileiro das galáxias, para o amigo Trajano, mineiro exilado à beira do Capibaribe.
É, como grasna aqui o meu corvo Edgar, o secador-mor do país, se a regra é clara, o poder do pé-de-obra ficou explícito. Nunca é por 20 centavos, nunca é por 20 ou 30 segundos, é para fazer parte do jogo.
E que o país inteiro atinja o bom senso, a imunização racional, como cantava Tim Maia, em nome dos caboclos evoluídos, em nome da leitura, a salvação da história, em nome dos que jogam bola no Cruzeiro ou nos times do salário mínimo convertido ainda em cruzado, em nome do Araripina, o bode do sertão, e de outros times que atuam poucos meses no ano, em nome das bocas que esperam em casa, independentemente do resultado do futebol.
@xicosa

Xico Sá Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

Mais como nos filmes - Ruy Castro

RIO DE JANEIRO - Saí à calçada e estiquei o braço em busca de um táxi. Passaram vários, todos cheios. Levei 20 minutos para conseguir um. Muito diferente do que acontece nos filmes, em que não apenas o vilão chega à rua e para imediatamente um táxi para fugir, como o herói toma outro segundos depois e começa a perseguição.
No cinema, os bandidos armam uma bomba atômica e a equipam com um mostrador para que o herói saiba a quantos segundos ela vai explodir. Quando o herói, que é um mosqueteiro, enfrenta 20 espadachins, eles o atacam um a um, em vez de todos de uma vez. O herói resiste bem às dezenas de socos que leva dos bandidos, mas geme quando sua namorada aplica um lencinho molhado aos seus ferimentos.
Ao fugir juntos de uma ameaça, o herói e a mocinha insistem em correr de mãos dadas quando fugiriam muito mais depressa se corressem separados. Quando o herói vai ao médico, nunca será por causa de uma diarreia, mas para enfaixar o ombro ou extrair uma bala. O herói só pode ser ferido no braço --jamais será visto mancando ou com uma atadura na cabeça. Ao acordar e pular da cama, toda mulher entrará imediatamente no chuveiro e nenhuma fará xixi.
Os cavalos do cinema são à prova de balas. Todas as invasões de extraterrestres começam pelos EUA. Qualquer monstro tipo morto-vivo, mesmo que recém-saído do túmulo e arrastando os pés ao andar, consegue capturar a mocinha que tenta escapar dele. Quando uma mulher recordar sua infância, será sempre mostrada de tranças, brincando de amarelinha ou pulando corda. Ao pagar uma conta no restaurante, o galã deixará várias notas na mesa --nunca apresentará o cartão ou fará um cheque.
E por aí vai. Estes são alguns dos casos recolhidos no livro "Tous les Clichés du Cinéma", pelo francês Philippe Mignaval. A vida devia ser mais como nos filmes.
ruy castro Ruy Castro, escritor e jornalista, já trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas, quartas, sextas e sábados na Página A2 da versão impressa.

José Simão

folha de são paulo

Feriadão! A Marcha dos Vadios!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! "Babi Rossi termina namoro com filho do Eike." Tá certa! Quem dá aos pobrex, termina pagando a contex do motelzex. Ficou pobrex, levou um pé na bundex! E o pai vai pro semáforo vender MenteX!
E o Zé Dirceu que tá na praia de Itacaré, Bahia. Agora ele vai mudar de banho de sol. O banho de sol continua, só muda o local. E já imaginou estar na praia e receber a notícia de que vai pra cadeia? Morreu na praia! Rarará!
E o Pedro Corrêa, do PP, está esperando a ordem de prisão na fazenda Boa Esperança, município Brejo de Deus! A esperança foi pro brejo.
E o Roberto Jefferson (aaargh) tem cara de delegado de novela da Record!
E a manchete do Piauí Herald: "Dilma autoriza exumação dos restos mortais do DEM". Rarará!
E piada de internet: "Meu filho virou flamenguista, o que eu faço?". "Vai juntando dinheiro pra fiança!". Rarará!
"Meu filho virou são-paulino, o que eu faço?" "Vai juntando dinheiro pro baile de debutantes e pros CDs do Abba!"
"E o meu filho é corintiano, o que eu faço?" "Vai juntando dinheiro pra visita de domingo." Rarará!
E um amigo nesse feriadão levou a namorada pro motel, tirou a cueca e disse: "É pequeno, mas é de coração". E um outro foi passar o feriadão na casa da sogra e só tinha três tipos de comida: enlatada, congelada e queimada.
E na casa de um outro chegou o sogro, a sogra, a cunhada, a prima e o concunhado, a Marcha dos Vadios! Rarará!
Feriadão: A Marcha dos Vadios! E sabe o que uma amiga vai fazer no feriadão? Botar um adesivo na testa: "Tô dando!". Rarará!
E todo feriadão a gente se lembra que BR é abreviatura de buraco. BR-101 quer dizer que tem 101 mil buracos. E que São Paulo é uma cidade rodeada de pedágios por todos os lados!
E um cidadão estava numa fila imensa do check-in, quando a funcionária perguntou: "Qual o seu destino?". "Meu destino é sofrer!" E um outro estava no check-in e a funcionária: "Que poltrona o senhor quer?". "A poltrona da minha casa!" Rarará!
E trabalhar em feriadão dá ziquizira e EMPIPOCA TUDO!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
José Simão José Simão começou a cursar direito na USP em 1969, mas logo desistiu. Foi para Londres, onde fez alguns bicos para a BBC. Entrou na Folha em 1987 e mantém uma coluna que considera um telejornal humorístico.

Mônica Bergamo

folha de são paulo

Advogado de pivô do escândalo dos fiscais de SP estuda dizer que crimes foram eleitorais

 A defesa do auditor Ronilson Bezerra Rodrigues, um dos pivôs do escândalo dos fiscais da Prefeitura de São Paulo, estuda argumentar que os crimes, se existiram, foram eleitorais.
PÉ E CABEÇA
"O encaminhamento que o Ministério Público tem dado às investigações, com o envolvimento de vereadores que receberiam dinheiro para campanhas, mostram que as coisas caminham para esse lado. Do ponto de vista jurídico, é uma reviravolta", diz Ricardo Sayeg, advogado de Rodrigues.

É POSSÍVEL
Ele segue: "Ainda não temos um diagnóstico. Mas é uma das possibilidades, se tudo for retratado como um delito eleitoral".

BATE EM CHICO
O advogado de Antonio Palocci, José Roberto Batochio, diz que, caso seja constatado que os fiscais acusados de corrupção também quebraram o sigilo fiscal do ex-ministro, "ficará comprovado mais uma vez que ele é vítima de vazadores militantes juramentados".

BATE EM FRANCISCO
Palocci, que caiu do ministério de Lula quando foi acusado de vazar dados bancários de um caseiro, em 2006, teria tido os próprios dados vasculhados e vazados pelos fiscais na administração de Gilberto Kassab em 2011, segundo testemunha que depôs no Ministério Público. Então ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff, Palocci caiu de novo por não explicar o aumento de seu patrimônio, após série de reportagens da Folha.

TCHAU, MALUF
Antonio Amaral, presidente da CDHU, a estatal paulista de casas populares, vai sair do cargo. Ele foi nomeado pelo governador Geraldo Alckmin na cota do PP de Paulo Maluf --que deve apoiar o PT na disputa contra o tucano em 2014.

TUDO SE TRANSFORMA
Os apresentadores Luciano Huck e Flávio Canto, a atriz Fiorella Mattheis e o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) entregaram nesta semana alguns dos prêmios do Trip Transformadores 2013. A cantora Daniela Mercury e o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) estavam entre os homenageados da noite. O dono da Editora Trip, Paulo Lima, recebeu convidados como o humorista Rafinha Bastos no Auditório Ibirapuera.

Daniela Mercury e Marcelo Freixo são premiados

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Ali Karakas
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A cantora Daniela Mercury foi um dos homenageados no Prêmio Trip Transformadores 2013, que aconteceu na semana passada no Auditório ibirapuera
ESTRELA PRINCIPAL
O escritor Laurentino Gomes planejava escrever a biografia de Tiradentes. Desistiu depois de descobrir que o jornalista Lucas Figueiredo já iniciara pesquisa sobre o personagem.

CAMINHO
Lucas Figueiredo procurou saber --e descobriu que Tiradentes não tem herdeiros que poderiam complicar a publicação da obra.

TELA
E o agente de Laurentino nos EUA foi procurado por uma produtora de lá interessada em transformar "1889", seu livro mais recente, em série.

CARTA DE FORTALEZA
Mais de uma dezena de escritores reunidos em Fortaleza assinaram uma carta aberta defendendo a ação que tenta derrubar, no STF (Supremo Tribunal Federal), a exigência de autorização prévia para a publicação de biografias. E apoiando o projeto do deputado Newton Lima (PT-SP) sobre o mesmo tema. Assinaram o documento biógrafos como Fernando Morais, Paulo César de Araújo, Mário Magalhães e também Lucas Figueiredo.

CURTO-CIRCUITO
Verônica Ferriani canta hoje no Auditório Ibirapuera, às 21h. Livre.
A peça "A Geometria do Absurdo", de Marcio Aquiles, será apresentada amanhã, às 19h30, na SP Escola de Teatro. 14 anos.
A Cia Soma de Dança estreia o espetáculo "A Última Estrada", na Casa das Caldeiras, amanhã, às 21h. Grátis. Livre.
Alexandre Nero faz show de lançamento do DVD "Revendo Amor, com Pouco Uso, Quase na Caixa", no Auditório Ibirapuera, amanhã, às 19h. Livre.
O livro "Butantã, um Bairro em Movimento" (Versal Editores), do fotógrafo Edu Simões, será lançado no dia 27, no terraço do edifício Odebrecht, às 19h.
com ELIANE TRINDADE, JOELMIR TAVARES, ANA KREPP e MARCELA PAES

Mônica Bergamo Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.