domingo, 1 de dezembro de 2013

Dilma cresce e oposição encolhe, aponta Datafolha

folha de são paulo
Dilma cresce e oposição encolhe, aponta Datafolha
Se eleição fosse hoje, presidente só enfrentaria 2º turno caso Marina disputasse
No cenário que hoje parece mais provável, petista alcança 47%, contra 19% de Aécio e 11% de Campos
FERNANDO RODRIGUESDE BRASÍLIADe junho para cá, os pré-candidatos a presidente fizeram o possível para recuperar a popularidade perdida por causa do abalo provocado pelas manifestações de rua em todo país. Por enquanto, só a presidente Dilma Rousseff segue em trajetória ascendente. A oposição oscila entre bons e maus momentos, e agora encolheu um pouco mais, segundo o Datafolha.
Dilma ou seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do PT, lideram a corrida presidencial em todos os cenários mais prováveis para 2014 --o Datafolha testou nove combinações de nomes.
A presidente pontua de 41% a 47%, dependendo de quem são seus adversários. Lula oscila de 52% a 56%.
O Datafolha entrevistou 4.557 pessoas em 194 municípios na quinta e na sexta-feira. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Apesar do conforto momentâneo que oferecem a Dilma, os eleitores emitem um sinal contraditório para a petista. Dois terços dizem preferir que "a maior parte das ações do próximo presidente seja diferente" das adotadas por ela.
Entre todas as simulações com os nomes dos pré-candidatos, o cenário que parece mais provável hoje é também aquele em que Dilma está mais bem colocada. Ela tem 47% contra 19% de Aécio Neves (PSDB) e 11% de Eduardo Campos (PSB). Em outubro, ela pontuava 42%. O tucano tinha 21% e o socialista, 15%.
Nesse cenário, o percentual de eleitores que vota em branco, nulo ou que se diz indeciso ficou inalterado em 23%, de outubro até agora. Ou seja, a petista cresceu extraindo votos dos dois adversários diretos nesse período. Ganharia no primeiro turno.
A presidente só não venceria hoje a eleição na primeira votação nos cenários em que Marina Silva aparece como candidata. Ocorre que a ex-senadora se filiou ao PSB e não é certo que vá concorrer como cabeça de chapa nas eleições do ano que vem.
Numa das simulações, a petista fica com 41% contra 43% dos outros dois adversários somados (Marina registra 24% e José Serra 19%). Mas Dilma está se recuperando. Em outubro, tinha 37%, contra 28% de Marina e 20% de Serra.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, testado num dos cenários, aparece com 15%, numericamente em segundo lugar. Dilma, com 44%, venceria no primeiro turno. Aécio teria 14%. Campos, 9%.
Diferentemente de Dilma, o ex-presidente Lula venceria a disputa no primeiro turno nos quatro cenários em que seu nome aparece --inclusive contra Marina e Serra.

    Presidente termina 2013 em alta graças à oposição ineficiente - Mauro paulino

    folha de são paulo
    ANÁLISE AVANÇO DE DILMA
    Presidente termina 2013 em alta graças à oposição ineficiente
    Ambiente até esteve propício, mas ninguém conseguiu formular discurso adequado às demandas dos brasileiros
    MAURO PAULINODIRETOR-GERAL DO DATAFOLHAALESSANDRO JANONIDIRETOR DE PESQUISAS DO DATAFOLHADilma fecha 2013 em alta. A pesquisa divulgada hoje pelo Datafolha confirma a tendência dos levantamentos anteriores, em agosto e outubro. Estes já apontavam crescimento da popularidade da presidente após a queda sofrida inicialmente em função da sensação de insegurança econômica e acentuada após os protestos de junho.
    No último mês, tanto a aprovação à gestão petista quanto o apoio à sua reeleição cresceram, enquanto o índice de rejeição ao seu nome caiu no mesmo período.
    Mas o cenário que explica o processo de retomada da popularidade da presidente não se limita apenas às respostas pontuais do governo à crise deflagrada pelas manifestações e tampouco na percepção dos brasileiros sobre a economia.
    É marcado, acima de tudo, pela ineficiência da oposição na formulação de um discurso adequado às demandas dos brasileiros. Somados, os candidatos da oposição caíram nas intenções de voto na mesma proporção com que a presidente subiu.
    E não faltou ambiente favorável à oposição este ano. Da pressão inflacionária no primeiro semestre evidenciada na pesquisa do início de junho, passando pelo debate multifacetado dos protestos até a repercussão das prisões dos condenados no processo do mensalão, o noticiário era rico em matéria-prima para a apresentação de alternativas.
    Para completar, reações específicas do governo em cada um desses episódios também não convenceram. Com exceção do alcance do Mais Médicos, programa aprovado pela população, e da sensação de empregabilidade entre os brasileiros, a proposta polêmica de reforma política e a insegurança sobre a economia forneciam um arsenal ainda mais valioso para os adversários de Dilma.
    Porém, o espaço encontrado pela oposição e a forma como tentou capitalizar tais temas não encontraram aderência especialmente junto aos estratos mais carentes da população.
    Sobre 2014, o ambiente que se projeta na opinião pública não é dos melhores para o governo. Apesar do 13º salário injetar agora certo otimismo quanto ao poder de compra e à condição econômica dos entrevistados, há um maior pessimismo quanto ao desemprego e à inflação, em patamares próximos aos verificados no início de junho, antes dos protestos.
    O desejo de mudança expresso pela maioria, próximo ao observado no fim do segundo mandato de FHC, em 2002, exige tanto do governo quanto da oposição ações mais eficientes e compreensíveis para ocupar esse espaço de insatisfação latente, que decidirá as eleições.
    Ouvir, decifrar essas demandas e entregar programas adequados aos diferentes anseios e segmentos da população é a principal lição que 2013 impõe para os candidatos em 2014.

      Painel - Vera Magalhães

      folha de são paulo
      PAINEL
      Sem dia de visita
      Pesquisas de posse do PT já apontavam apoio maciço à decisão do STF sobre a prisão dos condenados no mensalão, revelado pelo Datafolha. Esses números pautaram o distanciamento de Dilma Rousseff em relação aos petistas presos. Mesmo com a estratégia de descolamento, o desempenho da presidente piora entre os que se dizem bem informados sobre as prisões: a vantagem de 12 pontos que tem sobre Marina Silva em um eventual 2º turno cai para um ponto (44% a 43%).
      Toga Contra Joaquim Barbosa, Dilma venceria por 54% a 30% em caso de uma segunda fase da disputa, mas o resultado muda para 45% a 42% entre os eleitores que se consideram bem informados sobre a execução das penas.
      Nicho Nos cenários de primeiro turno, Joaquim Barbosa empata com Dilma em dois recortes: no grupo com ensino superior completo (27% para cada um) e no de renda superior a dez salários mínimos (ambos e Aécio Neves aparecem com 25%).
      Volta Entre os eleitores que consideram o governo ruim ou péssimo, apenas 5% aceitariam votar em Dilma. Se Lula for o candidato do PT, 28% desses entrevistados votariam no ex-presidente.
      Fica Já os entrevistados que têm o PT como partido de preferência não engrossam o coro pela volta do ex-presidente. Na pesquisa espontânea, Dilma passou de 39% em outubro para 46%. Lula caiu de 15% para 7%.
      Vem... Foco de ação do governo após os protestos iniciados em junho, as cidades grandes apresentam recuperação mais lenta da petista. Dilma passou de 38% dos votos em municípios com mais de 500 mil habitantes, em outubro, para 41% agora.
      ... pra rua Aécio e Eduardo Campos (PSB), que caíram no resto do país, ficaram estáveis nas grandes cidades. Nesses municípios, Marina venceria Dilma no segundo turno. A ex-senadora tem 45% e a petista, 43%.
      Ressaca A rejeição de José Serra (PSDB) na capital paulista, que governou de 2005 a 2006, supera em 9 pontos a média nacional. No país, 35% dos eleitores não votariam no tucano. Em São Paulo, sua rejeição é de 44%.
      Afago Depois do mal estar da queda de braço pelo reajuste dos combustíveis, Dilma fará elogios rasgados à presidente da Petrobras, Graça Foster, em seu discurso na solenidade de assinatura do contrato da concessão do campo de Libra, amanhã.
      Que tal? Já na largada de sua incursão pelo interior de São Paulo no fim de semana, Aécio fez o mais explícito apelo por apoio aos tucanos paulistas que o acompanhavam: "Me ajudem a vencer a eleição em São Paulo que eu ganho a eleição no Brasil".
      Pelo fio... O PSB viu influência do PT na ação de caciques nacionais do PMDB que tentam afastar os socialistas de uma possível aliança com o partido ao governo do Rio Grande do Sul, o que abriria um palanque para Eduardo Campos no Estado.
      ... do bigode Lula já orientou os partidos aliados a isolar o governador pernambucano em Estados de maior peso político e grandes colégios eleitorais. O petista Tarso Genro tentará a reeleição no Rio Grande do Sul, com o PMDB como adversário.
      Capacete Deputados do Solidariedade protocolaram na Câmara pedido de audiência pública com diretores e engenheiros da Odebrecht sobre a segurança dos trabalhadores das obras da empresa para a Copa de 2014. O partido, liderado por sindicalistas, quer explicações sobre o acidente no Itaquerão.
      TIROTEIO
      Só um marciano ou alguém fora de si não saberá quem contratou o frete, a origem e o destino da droga e quem autorizou o pouso.
      DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre Gustavo Perrela (SDD-MG) ter dito que não sabia do transporte de 445 kg de cocaína em seu helicóptero.
      CONTRAPONTO
      Especulação política
      O senador e presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) participou de almoço do Secovi (sindicato de construtoras de São Paulo) na sexta-feira. No final, conversava numa roda de empresários sobre mercado imobiliário.
      -Meu avô deixou um sítio para mim e para minhas irmãs e pensamos em vender e comprar uma sala comercial cada um em São Paulo -disse o tucano.
      Em seguida, o mineiro concluiu:
      -Tive de desistir: o IPTU aqui é muito alto!
      A ironia com a polêmica da correção da tabela pelo prefeito Fernando Haddad (PT) causou risos da plateia.

        Esperança eu não tenho, meu pai não vai durar na prisão [Miruna Genoino]

        folha de são paulo
        ENTREVISTA MIRUNA GENOINO
        MENSALÃO AS PRISÕES
        Filha afirma que petista não tem nenhum arrependimento e que paga o preço pelo PT
        MARINA DIASDE SÃO PAULOMÔNICA BERGAMOCOLUNISTA DA FOLHA
        Miruna Kayano Genoino se lembra com detalhes da tarde em que seu pai reuniu a família e comunicou: "Lula pediu para eu ser presidente do PT e vou fazer isso porque esse projeto precisa funcionar". O ano era 2002 e Luiz Inácio Lula da Silva tinha sido eleito presidente da República.
        Filha do deputado federal licenciado José Genoino, a professora de 32 anos diz que o pai não tem arrependimentos. O petista foi condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha no mensalão e, segundo Miruna, acredita que, "se esse é o preço que tem que pagar para que o projeto do governo Lula e Dilma funcione, ele paga".
        Genoino foi preso em 15 de novembro e levado ao Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, para cumprir pena em regime semiaberto. Após uma semana, teve uma crise de pressão alta, foi levado ao hospital e de lá seguiu para a casa da filha Mariana, onde espera o Supremo Tribunal Federal analisar seu pedido de prisão domiciliar.
        "Meu pai não tem esperanças de que isso aconteça", disse Miruna à Folha. Leia a seguir trechos da entrevista.
        Julgamento e prisão
        O momento mais difícil para o meu pai foi quando ele foi condenado. Durante o julgamento ele tinha esperança de ser absolvido. [Os elogios de alguns ministros antes de condená-lo] só o deixavam mais irritado. Era como se fosse um afago para depois meter a faca. Isso, hipócrita.
        A prisão não teve o elemento surpresa. Por um lado, quando chegou a notícia, conseguimos respirar. Estávamos vivendo uma situação insustentável com o cerco da imprensa, os repórteres e fotógrafos querendo tirar fotos de tudo. O que vivi como mãe não desejo a ninguém. Posso entender que queiram tirar foto dele se entregando, mas não entendo o desejo de tirar fotos de dois menores de idade indo visitar o avô [os filhos de Miruna têm 5 e 7 anos]. Quando chegou a notícia, foi quase "vamos começar com essa porcaria de uma vez".
        Preso político
        Meu pai está proibido de emitir opinião, de dar entrevistas, e dizem que ele não é preso político. Então por que ele não pode falar? É preso político, sim. Meu pai foi condenado porque era presidente do PT.
        Lembro da vez em que ele se sentou na sala com a gente e falou: "Olha, o Lula pediu para eu ser presidente do PT e vou fazer isso porque esse projeto precisa funcionar".
        Às vezes, eu penso que se a gente tivesse falado alguma coisa... Mas não, ele não tem arrependimentos. Nenhum. Ele fala que, se esse é o preço que tem que pagar para que o projeto do governo Lula e Dilma funcione, ele paga.
        Saudade
        Estou sentindo muita saudade dele, muita mesmo. Na semana passada foi a apresentação de dança da minha filha e só estava eu para assisti-la [chora]. E isso nunca mais vai voltar. Ele nunca mais vai ver essa apresentação.
        É difícil porque tenho uma ligação muito forte com meu pai, e o que acontece com ele é como se estivesse acontecendo aqui [coloca a mão em cima do coração e chora ainda mais], como se ele estivesse dentro de mim. Aí a minha mãe vai tentando ajudar a gente. Ela fala: "Você não é ele". Quando tive meus problemas pessoais este ano, ela também falava para o meu pai: "Você não é ela, calma".
        Doença
        Em julho deste ano meu pai estava com minha mãe e meus filhos em Ubatuba [litoral de São Paulo] e passou mal [foi submetido à cirurgia para corrigir uma dissecção na aorta]. Eu estava viajando. Faço mestrado na Argentina, e passei a noite no avião sem saber se meu pai estava vivo ou morto.
        O que mais dói é que foi tão difícil o que nos aconteceu naqueles dias, meu pai tinha só 10% de chance de sobreviver e, graças a Deus, ele venceu. Agora questionam se a gente está usando a doença dele como estratégia. Isso é muito duro porque, se eu pudesse escolher, mesmo com meu pai preso e a gente longe dele, se ele estivesse bem de saúde, eu escolheria isso.
        'Querem nos destruir'
        Só não larguei o mestrado por causa dele. Soube da aprovação dias depois da condenação [novembro de 2012]. Ele me disse: "Querem nos destruir e você não pode permitir. Você vai continuar lutando e fazendo as suas coisas porque não podem nos apagar".
        Se você me perguntar quem é o sujeito do "querem", de cara vou falar que a mídia teve muito a ver com isso. Meu pai teve muitas decepções. Mas com a mídia ela foi devastadora, o coração dele começou a rasgar ali. Ele tem uma mágoa profunda, uma dor com tudo o que é publicado. Quando os jornalistas ficam lá fora de casa, essas manchetes, essa agressividade, esse recorte da realidade é um punhal para ele.
        Vontade de morrer
        Depois da cirurgia, meu pai se perguntou: "Por que a vida não me levou?" Ele não tinha medo de morrer, mas se questionou muito. Na época da ditadura, ele não tinha nada a perder, mas hoje ele tem os filhos, os netos e minha mãe.
        Solidariedade
        Lula, Dilma e o PT sempre tiveram solidariedade com o meu pai. E eu só estou falando isso aqui porque se tiver uma pessoa --e só uma-- que ache que ele esteja fingindo e, depois de ler essas minhas declarações, mude de ideia e se convença que ele está mesmo doente e precisa de cuidados, para mim já vai ser suficiente.
        Laudo médico
        Meu pai passou mal na Papuda e precisou ir para o hospital em Brasília. Ele teve uma alteração de pressão que durou dois dias. Nós tínhamos quatro laudos dizendo que a situação era grave. Quando chegou a junta médica do STF já era o final de dois dias no hospital. É claro que a pressão tinha baixado. Ali ele estava medicado e com a família.
        Minha pergunta é: esses médicos foram na Papuda? Foram ver a alimentação do meu pai na prisão? Viram que na Papuda não tem plantão médico noturno? Foram ver? Não foram. E eles se sentiram autorizados a dizer que meu pai não precisa ficar em casa.
        Companheiros de cela
        Já falei que se eu tivesse mil vidas e durante todas elas eu ficasse dizendo "obrigada" não seria suficiente para agradecer ao José Dirceu e ao Delúbio [Soares] por tudo o que eles estão fazendo pelo meu pai. Porque se teve alguém que cuidou do meu pai foram o Zé Dirceu e o Delúbio.
        Eles foram atrás de água mineral para o meu pai parar de beber água da torneira. Insistiram e a polícia levou. É por isso que meu pai deve querer ficar na Papuda caso o STF não dê a domiciliar. Eles não querem se separar.
        Próximos dias
        Esperança eu não tenho. O único dia em que minha mãe perdeu a cabeça foi quando ele passou mal e o médico disse que ele precisava ir ao hospital, mas o juiz não autorizou. Ela gritou, chorou, ficou nervosa, se descontrolou.
        Quando as pessoas falam que ele vai ficar alguns meses no semiaberto e depois já pode pedir progressão da pena, penso que não sei como ele vai chegar. Em uma semana eu vi como ele piorou, como eu vou pensar em meses? Oito meses? Ele não vai durar isso na prisão. Não vai.

        Colegas de hotel ironizam contratação de Dirceu - Fernanda Odilla

        folha de são paulo
        'Já está fichado, mesmo preso? Quem pode, pode, não é?', questiona um funcionário
        FERNANDA ODILLADE BRASÍLIANem mesmo funcionários do hotel onde José Dirceu foi contratado para trabalhar enquanto cumpre pena acham que o petista vai de fato gerenciar o Saint Peter, que tem 427 quartos, vista privilegiada da Esplanada e está a apenas 450 metros da sede do PT.
        Orientados a tratar do caso com discrição, os poucos funcionários que se arriscam a falar sobre o futuro gerente abaixam a voz. E classificam a contratação de "maracutaia", "disfarce", "esquema".
        Muitos não escondem a indignação sobre o salário de R$ 20 mil na carteira de trabalho já assinada, apesar de Dirceu ainda esperar autorização da Justiça para começar como gerente. "Já está fichado, mesmo preso? Quem pode, pode, não é?", questiona um futuro subordinado.
        Na quinta, o pedido de trabalho que permitirá a Dirceu ficar fora da cadeia das 8h às 17h foi enviado para análise da Vara de Execuções Penais para subsidiar a decisão do juiz, que deve sair em 2014.
        As piadas sobre Dirceu, condenado a 7 anos e 11 meses por corrupção, são inevitáveis entre os que estarão subordinados ao novo gerente. "Só não mandar ele para o financeiro...", diz um funcionário que aposta que ele ficará numa sala no subsolo.
        Se Dirceu assumir a função de gerente do hotel, não vai faltar trabalho no Saint Peter. No restaurante, o vinho oferecido pelo garçom como a estrela da casa é o brasileiro Faces, uma seleção de 11 uvas, por R$ 59. No quarto, um misto quente custa R$ 18, o mesmo preço de um pudim.
        Da modesta carta de vinhos ao tapete manchado dos corredores escuros, o hotel não oferece estrutura compatível com o preço de quatro estrelas que cobra: a diária mais barata é R$ 345,45 na quinta.
        Com uma equipe meio atabalhoada, instalações modestas e uma reforma que se arrasta há dois anos, o Saint Peter tem como ponto forte a localização. Políticos costumam se hospedar no hotel --o próprio Dirceu já ficou lá.
        Caso a Justiça o autorize a trabalhar, o hotel deverá atrair outros políticos e empresários dispostos a dar pelo menos um aperto de mão no petista.

          Elio Gaspari

          folha de são paulo
          A autoridade do fracasso
          Oito ex-ministros da Fazenda da farra inflacionária pedem ao STF que proteja a banca da cobiça dos poupadores
          São inúmeras as contribuições dadas pelo economista Pedro Malan aos bons costumes nacionais, mas de todas a mais bem-humorada é sua afirmação de que "no Brasil, até o passado é incerto". Na batalha da banca para derrubar no Supremo Tribunal Federal os pleitos dos poupadores tungados pelos planos econômicos do final do século passado, entrou um manifesto de 13 ex-ministros da Fazenda e 11 ex-presidentes do Banco Central prevendo a ruína nacional caso o sistema financeiro seja desatendido.
          Debulhando-se a lista dos signatários vê-se como o passado é incerto. No "Clube dos 24", os ex-ministros da Fazenda signatários são 13. Deles, cinco têm a autoridade do desempenho para falar em defesa da moeda, pois restabeleceram seu valor e nunca mexeram no bolso do quem guardou sua poupança nas cadernetas. São Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Rubens Ricupero, Ciro Gomes e Antonio Palocci. Restam oito. Todos, com exceção de Delfim Netto na sua primeira encarnação de czar da economia (1967-1974), entraram no cargo prometendo conter a inflação e foram-se embora deixando para o sucessor uma taxa mais elevada ou ainda na faixa dos quatro dígitos. Considerando-se que a inflação brasileira não foi provocada pelos ciclistas nem pelas pessoas que poupavam nas cadernetas, é ilustrativo voltar ao legado de cada um dos doutores-signatários:
          Ernane Galvêas chegou ao ministério em 1980 e saiu em 1985. Foi condômino da segunda encarnação de Delfim. Fechou seu primeiro ano com a inflação em 110%, medida pelo IGP-DI da Fundação Getulio Vargas. Em 1984 ela foi para 223%.
          Luiz Carlos Bresser-Pereira foi para a Fazenda em abril de 1987 e saiu em dezembro. No ano, a inflação chegou a 415%. Nesse período ele concebeu o Plano Bresser, que foi o primeiro avanço sobre a remuneração da poupança.
          Mailson da Nóbrega ficou no cargo de maio de 1987 a março de 1990. Em 1988 a inflação chegou a 1.037%. Ele concebeu o Plano Verão e, ao final de 1989 o IGP-DI fechou em 1.782%.
          Zélia Cardoso de Mello conduziu os Planos Collor 1 e 2. Ficou no cargo de março de 1990 a maio de 1991. Em 1990 a inflação ficou em 1.476%.
          Marcilio Marques Moreira assumiu em maio de 1991 e foi embora em outubro de 1992. Nesse ano o IGP-DI ficou em 1.157%.
          Gustavo Krause e Paulo Haddad estiveram poucos meses no ministério, entre o final de 1992 e o início de 1993, ano em que a inflação chegou a 2.708%.
          Na carta os ex-ministros lembraram: "Em alguns meses, a inflação mensal anualizada superou 10.000%". É claro, pois aquilo foi coisa dos ciclistas.
          O manifesto poderia ter sido assinado pelos cinco ex-ministros capazes de dizer que, tendo reequilibrado as finanças nacionais, usam a própria autoridade para recomendar ao Supremo que dê razão à banca. Seria possível discordar deles, mas não se lhes poderia contestar os currículos. Quando aos cinco juntaram-se oito cavaleiros da ruína, formou-se um bloco. Certamente, não é o desempenho que os une. É a defesa dos bancos. Ganha uma viagem a Paris quem souber de outro tema capaz de gerar semelhante coesão.
          • A obra dos doutores está na tabela do texto "Índices de Preços no Brasil", no portal do Banco Central.
          SUPERDIRCEU
          O comissário José Dirceu foi contratado por R$ 20 mil mensais para trabalhar no hotel Saint Peter, que pertence a Paulo Masci de Abreu. O empresário tem oito rádios em São Paulo e seu irmão preside o PTN, partido ectoplásmico que apoia a doutora Dilma.
          Abreu é um empresário discreto e a contratação do novo gerente deu-lhe fama. Que os santos o protejam, bem como à rede associada aos seus interesses. Em 2003, Marcos Valério era um bem-sucedido publicitário, desconhecido fora de Belo Horizonte.
          PERDERAM O TREM
          Se os doutores Geraldo Alckmin e Fernando Haddad não tivessem ido para Paris em junho passado para defender a realização da Expo 2020 na cidade, ela não teria sido eliminada na primeira rodada da votação que escolheu Dubai. Eles teriam ficado em São Paulo fazendo seu serviço, até porque naqueles dias seria possível tratar as manifestações contra as tarifas de transporte de uma forma racional.
          Pelo menos um deles foi advertido: "V.D.M."
          Da viagem resultou a inesquecível apresentação da dupla cantando "Trem das Onze", resgatada pelo repórter Fernando Mello.
          Adoniran Barbosa mostrou-se profético:
          "Não posso ficar nem mais um minuto com você
          (...) Tenho minha casa para olhar".
          ERRO
          Estava errada a informação aqui publicada segundo a qual um rabino teria rogado praga contra a descendência de Joseph Kennedy em 1941, quando ele viajava num transatlântico para os Estados Unidos. O episódio teria ocorrido antes da guerra, e Kennedy viajava sozinho. Em 1941 o Atlântico estava infestado por submarinos alemães.
          O PROBLEMA É QUE A BANCA QUER PAGAR ZERO
          A briga dos poupadores lesados nos planos econômicos do século passado virou uma guerra de cifras. O "Clube dos 24" argumenta que, se as vítimas forem indenizadas, os bancos perderão R$ 100 bilhões. Noutra conta, seriam R$ 150 bilhões, mas há um estudo que fala em R$ 600 bilhões. Tamanha disparidade num cálculo de banqueiros sugere que ele foi contaminado por um impulso terrorista. As provisões dos bancos protegendo-se contra esse mau momento, expressas em seus balanços, fica em R$ 18 bilhões.
          No coração do litígio estão as mudanças feitas no cálculo da correção monetária, que afetou a remuneração das cadernetas nas primeiras semanas dos planos. Um cidadão que em janeiro de 1987 tinha na poupança mil cruzados (a moeda da época), perdeu 204 cruzados na remuneração de 15 dias de fevereiro de 1987. Tomou uma tunga que hoje está em R$ 880.
          Esse litígio deverá ser encerrado pelo STF no ano que vem. Ele se arrasta há mais de 20 anos, porque a banca quer pagar zero, noves fora os honorários de seus advogados. Eles perderam em quase todas os tribunais, inclusive no STJ e, em dois lances de pura chicana, junto ao STF.
          As vítimas dizem que perderam na remuneração das cadernetas durante algumas semanas. Os bancos respondem que os poupadores perderam numa fase e ganharam mais adiante. Há na praça uma ideia que elimina a argumentação terrorista e simplifica o debate. O Supremo poderia determinar que os poupadores sejam ressarcidos a partir de um cálculo baseado num só índice (o IPC, por exemplo), durante todos os períodos que duraram as mágicas. Em vez de discutir se cartola produz coelho, expurga-se o truque.
          Nesse caminho, quem entende de banco assegura que a conta deveria ficar nuns R$ 50 bilhões. Em cima disso, os ministros deveriam decidir se, além da correção monetária e dos juros contratados, os bancos devem pagar juros de mora pela duração do litígio. Essa é outra conta e outra discussão.

            Janio de Freitas

            folha de são paulo
            O direito de não o ter
            O STF adiou o julgamento do caso das cadernetas de poupança para 2014. Pressa, só no processo do mensalão
            O maior avanço do Brasil no pós-ditadura é nos direitos humanos. Os neoneoliberais dirão que é nas privatizações, até porque direitos humanos só lhes ocorrem para falar de China e Cuba. Tão logo terminada a era das transgressões desumanas, os direitos humanos se puseram em marcha ininterrupta, acelerada pela Constituição. Mas tudo o que se caminhou nessa direção é ainda muito, muito pouco.
            O reconhecimento do racismo, a maior repressão à violência contra as mulheres, a ajuda financeira contra a miséria alimentar, os programas habitacionais e de melhoria material estão sob ataque constante, mas são fatos. Visíveis em suas formas humanas. Nem por serem assim e projetarem benefícios também sobre as classes abastadas, sem as prejudicar em nada, foram capazes de disseminar nelas uma mentalidade menos apegada às raízes das desigualdades brasileiras.
            A prisão dos três petistas na Papuda revelou aos não brasilienses o padecimento extra dos familiares de presos comuns. Mesmo que chova e faça frio, são obrigados a dormir na rua como puderem, para conseguir as senhas distribuídas ao número limitado de visitantes às quartas e quintas-feiras. Nenhuma autoridade, local ou federal, deu atenção a isso, nem antes nem depois desse tratamento tornar-se notícia, reiterada para acusar privilégios dos petistas. Aos brasilienses que veem as famílias noturnas, é como se não vissem.
            São direitos humanos violentados, no entanto. Repito o que foi dito aqui: são pessoas não condenadas mas submetidas a um sofrimento adicional ao de terem um filho, o marido, o pai no presídio. A explicação: "há visitantes demais". É mentira. São dias de menos para visitas e horários de menos para fazê-las. Se há condições para visita na quarta, pode haver nos demais dias. É só um probleminha de direitos humanos, no entanto, sentido por uns poucos milhares de pessoas.
            Entre alguns milhares e vários milhões, porém, não há diferença. As perdas causadas aos detentores de cadernetas de poupança por quatro planos econômicos vêm desde o governo Sarney, e o processo sobre sua devolução se arrasta ao ritmo próprio do que chamamos de nossa Justiça. Coisa de 150 economistas e ex-ministros, diz o noticiário, assinaram um manifesto ao Supremo Tribunal Federal advertindo para os terríveis efeitos que o sistema financeiro, leia-se os bancos, sofreriam com uma sentença favorável à restituição do usurpado aos poupadores --R$ 150 bilhões.
            Se tal é o valor que não deve ser restituído, os próprios defensores do calote reconhecem que foram tomados da chamada poupança popular, as velhas e suadas "economias", R$ 150 bilhões que ficaram com os bancos.
            O Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, que tem cumprido sua utilidade com muita competência, informa que das 1.030 ações de restituição só 15 sobrevivem a uma decisão do Superior Tribunal de Justiça, há dois anos, sobre prazos para as reclamações. Com isso, uma sentença favorável à restituição só totalizaria R$ 8,650 bilhões.
            Entre os autores, colaboradores e apoiadores daqueles planos desastrados e, de outra parte, o Idec, este me parece preferível por três razões: está sempre muito mais certo no que faz do que estão aqueles economistas no que se presumem capazes de fazer; há concordâncias importantes com o Idec na OAB; e o Idec não tem ações de bancos, logo, não está defendendo o seu cofre sob argumento aparentemente desinteressado.
            A informação do Idec leva à conclusão de que os participantes do manifesto, ou cometem a leviandade de tomar uma posição pública sem saber o que de fato está em questão, ou têm as informações necessárias e valem-se de uma quantia impressionante para evitar que os bancos restituam à poupança popular um valor insignificante para o sistema bancário mais lucrativo do mundo.
            Não se trata, porém, de uma questão meramente financeira. É de direitos sociais, de direitos econômicos pelo desrespeito à lei e ao contrato das cadernetas com os depositantes, e, portanto, de direitos humanos pelos males infligidos à vida de milhões de pessoas.
            Na quarta-feira, o Supremo adiou o julgamento para 2014. Com pressa, como não se cansaram de reiterar os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, devia ser concluído só o processo do mensalão.