domingo, 27 de outubro de 2013

Antonio Prata

folha de são paulo
Alçapão
'Quem não reagiu, tá vivo.' Tchibum! 'Não vejo nenhum problema em nos aliarmos ao Maluf.' Tchibum!
Era um programa da RAI, tipo "Ídolos", mas, em vez das críticas dos jurados, o cantor desafinado recebia o alçapão: ou melhor, era recebido por ele; o chão se abria no meio do palco, e o infeliz desabava, com seus mórbidos bemóis e insustentáveis sustenidos, numa piscina cheia d'água.
Ao presenciar a cena, como sói acontecer diante das grandes ideias, torci o nariz. Achei tosco, violento, típico produto daquele canal italiano, que, por algum mistério da física, ficou congelado em 1981. O público, contudo, delirava sempre que um povero Pavarotti ia parar na piscininha. Chegavam a torcer, os tatatataranetos do Coliseu, para que os cantores fossem péssimos, só para vê-los tomar o literalíssimo banho de água fria.
Se, de início, não gostei da brincadeira, aos poucos fui mudando de ideia. É que o cérebro humano tem lá em seus cabos e roldanas um intrincado sistema de compensações, dedicado a erguer todo tipo de estranheza dos calabouços da bizarrice para o chão firme da normalidade, garantindo nossa permanência nessa morna redoma de tranquilidade. Lembrei de outros programas --de artes, de culinária, de esporte-- em que aprendizes esforçados veem suas performances e seus sonhos esculhambados por cruéis "especialistas". Saem chorando, tremendo, sangrando a alma diante de milhões de olhos sádicos. Comparado àqueles perversos empalamentos verbais, o alçapão foi me parecendo cada vez mais inocente, mais puro, benéfico até --o choque térmico ajudando a apagar a chama da humilhação, a refrescar o ardor da derrota.
Ok, as benesses para a vítima talvez sejam discutíveis, mas as vantagens para o público, não. A meritocracia transmitida ao vivo e a cores, a agressividade explodindo numa gargalhada --rápida e eficiente como uma guilhotina. Depois de uns 20 minutos diante da TV, comecei a pensar se não seria possível transformar o choque térmico num choque de democracia: por que não fazer do alçapão um instrumento republicano, assim como a urna eletrônica e a declaração on-line do IR?
Imaginem que delícia assistir aos debates entre candidatos sabendo que cada um deles jaz um metro acima de uma piscina? Por telefone, o público iria eliminando os fanfarrões, um a um. "Quem não reagiu, tá vivo." Tchibum! "Não vejo nenhum problema em nos aliar-mos ao Maluf." Tchibum! "O que a candidata acha sobre o aborto?" Tchibum! Ao final do debate, nem precisaríamos de eleição: aquele que permanecesse seco estaria eleito.
Deveríamos instalar alçapões não só nos programas de TV, mas nas calçadas, nas praças e estradas do Brasil. Jogou papel no chão? Alçapão. Dirigiu pelo acostamento? Alçapão. Entrou lá no começo da fila só porque encontrou um figura com quem estudou na terceira série? Espero que você saiba nadar, aldrabão.
Sei que criar um subsolo em todo o território nacional sairia um pouco caro, mas isso não é um problema, e sim uma solução: a construção de alçapões movimentaria a economia, tiraria o país da estagnação e colocaria nosso B maiúsculo à frente dos BRIC. Vamos para as ruas, meu povo, reacender a chama de junho e lutar por essa melhoria no país. Você acha que alçapões não são um motivo digno para atrapalhar o trânsito? Beleza, tá no seu direito --mas sugiro que, a partir de hoje, passe a sair por aí com uma toalhinha a tiracolo.

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