domingo, 24 de novembro de 2013

Um fragmento de "Finnegans Wake"

folha de são paulo

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JAMES JOYCE
tradução CAETANO W. GALINDO
ilustração MARCIUS GALAN

SOBRE O TEXTO Este trecho do romance "Finnegans Wake", de 1939, é parte inédita da nova tradução, ainda sem previsão de lançamento, a que vem se dedicando Caetano W. Galindo -o livro já foi traduzido anteriormente no Brasil, por Donaldo Schuler, para a editora Ateliê. Segundo Galindo, este excerto (págs. 21 e 22 do original) é "uma vinheta mais ou menos independente que, no entanto, explora e amplia temas fundamentais da obra: incesto, relações familiares, relações homem-mulher baseadas em sedução e poder, enigmas sem respostas e, claro, uma das famosas palavras-trovão, com cem letras, que interrompem o desenrolar da 'trama'". Galindo dá um conselho ao leitor: "O 'Finnegans Wake' não existe para ser exatamente 'entendido'. Leia em voz alta, brinque um pouco com o texto e deixe que ele te ensine a sua língua própria".
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Ilustração Marcius Galan
Heraduma noite, tarde, munto timplo atroz, numa antaiga erdade das perdas, quando Adão socavava e sua madãominha tessia cedas d'água, quandomem montenote era todimundo e a premeira leal costeladra que jamais ouve osseu em-fim todomigo com seus olhos plenamormorejantes e todomiro vivia solamante com todamina amais e Conte Dom Cabeço metia a testada tostada benhalta no farol queimorava, impondo mão fria assi mesmo. E seus dois geminhos, bem pecanos, primos nóssios, Tristóvão et Hilário, chutanhavam sua bonica, no chão dolheado da casa do homerigho, castelo embarrocado. E, por Dermoto, quenhé quelhe surge na zeladoria dastalagem senão a contrassobrinhadessi por afinidade, a pirainha. E a pirainha rancouma rosinha e sargutou-se adeante do posta. E sim cendeu e a irlenda embrasil-se. E falela com o posta em seu maisquinho sotraque parusiense: Marco Hhm, por que queu soa pareço ingual um póco de siveja mês mussaca pais savor? E foice assim que começaram as escaramoças. Mas o posta rexplondeu assoa graça em olandês bem nassal: Portaquibateu! Aí sua graça o'malíncia rapetou o geminho Tristóvão e sternou-se rumoeste nunca minho alá deirado que chuvia, que chuvia, que chuvia. E Conte Dom Cabeço guerrinhousse atrazela em seu suave fel de rola: para péra esparajá mevoltacasa aparalá. Mas ela jurresponsoulhe: Umprabeledade. E vil-se um rajantar naquela mesma noite de sabote de anglos cadentes em alhum algur dos eires. E a pirainha foissembora em camanhada quarentana atudomundo e lavou as bença das beleza das verruga do geminho com sabão sepumensolhas e mandou seus quatro mochos mestros que lho seus trucos persinassem e ela o convortou aoum só-bom seguro-um-só e ele tornou-se luderano. Aí veio ela que chuvia e que chuvia e, por redemoto, estava de nova de volto no Conte Dom Cabeço num pescar de solhas e o geminho benho com ela navental, talde a noite, umoutra vez. E onde foi que foi ela sinão nobar do seu brostel. E Conte Dom Cabeço estava cos calcanhos seus bartolobrutos afagados no barril desmalte, apertando com si sóssio suas mãos acalentadas e o geminho Hilário e a bonica na primeira infântia estavam embaixo no lerçol, tolcendo e toussindo, comirmão e comirmã. E a pirainha pinçouma palidinha e sim cendeu de novo e volaram flamantes frangulhos febris das colhinas. E sargutissou delante do portarudo, dizendo: Mar cosdois, por que queu soa pareço ingual dois póco de siveja mês mussaca pais savor? E: Portaquibateu! diz o portarudo, rexplondendo sua deloucadeza. Então casopensada sua deloucadeza largou um geminho e pegou um geminho e por toda a vialíria morracima até a terra de gemém ela chuvia, que chuvia, que chuvia. E Conte Dom Cabeço bailia atrás dela com alto fol de ralo. Para fera esparajá mevoltacausa apuralá. Mas a pirainha jurresponsou: Quemeapretece. E ouve um talto laudejar naquela noite de lourença-feira, de estelas candentes em alhum algur dos eires. E a pirainha se foi na sua camanhada quarentana atidomundo e cravou as pragas protestintas com a tonpa dum grepo no geminho e mandou sas dequatras monitrizes cotovintes que tocassem suas lásgrimas e ela o provortou ao certo-somni-só-seguro e ele tornou-se tristão. E aí foi ela que chuvia e que chuvia, e num látimo, por dom temore, estava de volta no Conte Dom Cabeço e o Oiralih com ela embaixo da borra da seia. E por que ela se detinheria se tanto se nãobem na ala de sua mansomem em outra noutetarda para o terço dos encantos? E Conte Dom Cabeço estava com a pelve polvorosa na despenta encaixurrada, ruminando em seus estambos quátriplos (Varas! Devaras!), ei o geminho oavotsirt e a bonica estavam embeijo nas cobeldas, osculando e digotando, e canalhando e jururando, como lacraio e frialda e em sua segunda infântia. E a pirainha pinçou uma embranca e sim cendeu e jouveram os vales só cintilos. E ela fez-sargutissíssima defrante da arca do tio runfo, perguntando: Marco Tris, por que queu soa pareço ingual três póco de siveja mês mussaca pais savor? Mas foi assim que a escaramoça tevunfim. Pois quai-los camplínios conforcados de relampos que revinhom, o próbrio Conte Dom Cabeço Boanerges, o velho terror das sinhoritas, veio pulapula pulalante pela porta benhaberta de seus castros triscerratos, de chapéu bem rubirrondo e cularinho civicante e com seus saios fosquirrotos mais as louvas de peliça e aquelas salças furfúreas e a bandoneira categuta e suas bostas panunculares morduradas como um nãosionalista verme-amare-zerdavul violetamente indigonado, até o finda da fina fonta de seu carjado de capatrás. E tapeou sua mão rudosa nasorícula gelhada e falhou o que bostava e sua flh mbld dss prela ir focando côta, miafia. E a bobeca fê-lum calapôca (Perkodhuskurunbarggruauyagokgorlayorgromgremmitghundhurthrumathunaradidillifaititillibumullunukkunun!) E beberam todos de graça.
JAMES JOYCE (1882-1941), escritor irlandês, autor de "Ulysses" (1922) e "Finnegans Wake" (1939).
CAETANO W. GALINDO, 40, é professor de linguística histórica na UFPR e tradutor de livros como "Ulysses" (Companhia das Letras), de James Joyce, pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti.
MARCIUS GALAN, 41, é artista plástico.

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